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29.9.02
Ivana Arruda Leite na Estante
Ivana Leite, autora do Falo de mulher, deu uma entrevista virtual para a Estante de livros. Vejam o falo dela:
Estante: Ivana, o Falo de mulher é um livro com muitas personagens, narradores e temas femininos. O que você acha quando alguém vem com aquele papo de "literatura de mulher"?
Ivana: Apesar de achar que homens e mulheres escrevem diferente, eu não gosto dessa classificação porque ela esconde um preconceito. Aí me dá raiva.Se a minha literatura é de mulher? Claro que é. De cachorro ou de poste ou de homem é que não seria, já que eu sou mulher. Há homens que escrevem com muita delicadeza, assim como há mulheres que escrevem com fúria e vice-versa. Não é isso que faz uma literatura feminina ou masculina. A diferença entre elas vai muito além dessa classificação. Se é pra falar que literatura de mulher é coisa doce, fraca, cor-de-rosa, prefiro que não fale nada, mas que há uma literatura feminina, assim como há um olhar feminino, uma razão feminina, um sexo feminino, uma fúria feminina, isso há.
Estante: Qual é o conto que você mais curtiu escrever no Falo?
Ivana: Eu gosto muito de escrever os contos mais divertidos, que eu sei que as pessoas vão rir. O Cibele, das irmãs siamesas, foi uma delícia escrever. O da Berenice também. Eu vou rindo junto, é uma delícia. Mas tem conto que eu odeio escrever, os que pegam pesado, que metem a mão na merda e reviram lá no fundo, esses me deixam numa exaustão absoluta. Escrever um conto como Horóscopo é de matar. Mas é bom. É muito bom. Não tem nada melhor.
Estante: Infelizmente, tem uma galera de homens produzindo literatura e muito poucas mulheres. Se a gente fizer uma conta, a mulherada ainda anda meio escondida. Você encontra interlocutorAs?
Ivana: Poucas. Você é uma delas.Mas quando encontro uma mulher cuja literatura me encanta é um prazer indescritível. Piração mesmo, porque além da alegria da boa literatura, tem a alegria da identificação, do espelho. Historicamente entende-se porque há poucas mulheres na literatura e as razões são óbvias (demoramos a botar a cara pra fora, a assumir a nossa fala, a ocupar um lugar no mundo das artes, etc etc), mas cá entre nós, o fato de sermos poucas até que tem suas vantagens, tem mais olhos voltados para a nossa direção. O melhor é tirar proveito enquanto o mercado não fica inflacionado...
Estante: Quem batizou o Falo de mulher? Explica pra nós esse nome ambíguo.
Ivana: O nome Falo de mulher foi dado por meu grande amigo Marcelino Freire, a quem o livro é dedicado. Foi pra ele que eu mostrei os originais, foi ele quem me apresentou ao Plínio da Ateliê, ele e a Silvana fizeram a edição de arte, e foi ele quem teve a brilhante idéia do nome, a partir da epígrafe da Maria Rita Kehl. Quando ele leu a frase dela, teve a idéia na hora. Que santa idéia! Acho o nome ótimo.
Domingo, Setembro 29, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Falo de mulher custou a sair da gaveta ou foi composto num jato só?
Ivana: Em 1997 eu lancei meu primeiro livro de contos: Histórias da mulher do fim do século, pela Editora Hacker. A mesma temática: mulheres, mulheres, mulheres. O que escrevi de lá pra cá, está no Falo. Tem muito mais na gaveta, espero ir dando vazão aos poucos.
Estante: Ivana, fale pra nós da sua vida cotidiana. Sua profissão, sua casa, as pessoas, São Paulo.
Ivana: Bem, eu tenho 51 anos, moro sozinha com minha filha, de 24 anos. Fui casada no século passado, mas logo me separei. Depois disso, tive alguns namorados, mas nunca mais me casei. Nos anos 70 fiz arquitetura, parei a faculdade no quarto ano. Depois de dez anos, voltei a estudar, fiz Ciências Sociais na USP. Sou socióloga. Fiz mestrado em sociologia e abandonei o doutorado recentemente. Trabalho na Prefeitura, sou funcionária pública e não gosto do que faço. Meu sonho é viver de literatura, mas infelizmente esse parece ser um sonho impossível. Tenho muitos amigos aqui em São Paulo. Costumo sair com a turma da literatura (poetas, jornalistas, escritores de todas as prateleiras), bebemos juntos, conversamos, brigamos, são a minha turma. No mais, só falta falar da Princesa, minha cadela de 14 anos, paixão da minha vida.
Estante: Qual é seu próximo projeto literário?
Ivana: Meu próximo projeto é um livro infanto-juvenil para meninas, pela Editora 34. Espero que saia ainda este ano. A personagem principal é uma garota de 15 anos, muito engraçada, que se chama Ana Laura. A garota tem uma tia, a tia Bi (adivinha quem é?), e o livro é sobre as conversas que elas têm, os dramas e angústias de uma garota adolescente e sua tia maluca. Além disso, vão sair contos meus em duas revistas de literatura que estão pra estrear aqui em São Paulo, a Ácaro e a PS-SP. Aguardem!
Estante: Obrigada, Ivana. Em outubro você vem a BH lançar o Falo de mulher, junto com Sérgio Fantini. Estaremos todos lá.
Ivana: Ana Elisa, é com o maior prazer que vou a Belo Horizonte, dia 19, para lançar o Falo de mulher, te rever, rever meu amigo Sérgio Fantini e a Mônica, mulher dele, conhecer o Carlos da livraria e toda a galera, comer, beber essa cachaça maravilhosa, conversar de literatura. Quer coisa melhor?
Ivana Arruda Leite em
recorte de fotografia do Frodo,
roubada do site da Livros do Mal
Domingo, Setembro 29, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
27.9.02
O falo dela
Ivana Arruda Leite? Só se for com o pé na morte.
Finais felizes. Todas as histórias de princesas e príncipes têm um final romântico e doce, que serve para consolar as menininhas ouvintes e fazer com que acreditem que isso existe de verdade, em algum romance possível ou em algum casamento ideal.
Ivana Arruda Leite oferece, em Falo de mulher, uma medida profilática (ou várias) para esse tipo de avaria causada pela cultura que implanta o ¿complexo de Cinderela¿ nas adultas humanas. Final feliz, só se for com a Carochinha.
Literatura feminina. A maioria dos resenhistas de livros, quando depara com um livro escrito por uma mulher, vem com esse papo, mesmo que seja pra dizer que isso não existe. E não existe mesmo. O que existe é boa literatura. E Ivana Leite é uma dessas que narra com uma voz andrógina peculiarmente explícita, numa linguagem fluente, fácil, sem obstáculos.
Pois bem, Ivana Arruda Leite consegue, em Falo de mulher, uma dicção irônica e focos narrativos que variam entre homens e mulheres, para contar histórias que podem ocorrer no dia-a-dia de qualquer um. E onde está então a diferença? Está na maneira bem-tecida que a autora encontra de narrar esses fatos e na dose alta de realismo que dá a eles, nos finais infelizes, nas personagens humanas demais, nas pequenas tramas imprevisíveis de quem conta com o imponderável da vida e o coloca na literatura.
¿Berenice¿, por exemplo, é um dos contos em que a personagem leva com cinismo e uma alegria conformada a não-realização da cerimônia de seu casamento. ¿A puta seletiva¿ é um dos mais curtos e um dos melhores contos do livro. Os temas intensos estão todos aí inscritos: o amor desalinhado, o desamor em labaredas, as relações fatigadas, os homens covardes, as mulheres sólidas, o sexo eivado por libido e frigidez, os riscos que corre uma mulher quando decide viver para além das paredes de casa, a puta e a moça que é uma santa, mas se masturba todos os dias durante o banho, que é quando está escondida dos julgamentos.
Falo de mulher é um universo de sensações peculiares, narrado por uma voz que, sendo feminina ou masculina, sussurra num tom de mulher adulta afetada pelo mundo machista, mas esta mulher tem falo, tem fala, tem reação e resposta. Ela se mete vida adentro e vocifera, em ereção.
O livro poderia chamar-se ¿Mulher é tudo igual¿ (nome de um dos contos) ou ¿Homem é tudo igual¿, ambos os títulos resumiriam os arquétipos desenhados e as relações comprometidas pelas absurdas divisões macho/fêmea que se descolam da biologia e recaem sobre a cultura e os sentimentos.
Falo de mulher é para ler levantando a cabeça, identificando a vizinha, a mãe, o marido da tia, o ex-marido da filha, o avô. Ler reconfigurando o mundo.
Falo de mulher, de Ivana Arruda Leite
Ateliê Editorial
Sexta-feira, Setembro 27, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
22.9.02
Wir Caetano fala para a Estante de livros
Como é de praxe neste espaço virtual, eis aqui uma entrevista com o autor de Morte Porca.
Estante: Wir, você é um cara aparentemente tímido. O que te passou pela cabeça enquanto escrevia Morte Porca?
Wir: Sou tímido, sim, às vezes até morbidamente tímido. E sou gago também, embora já tenha sido até repórter. Mas não há nenhuma relação entre isso e meu livro. Essa psicologia não serve ao caso. Normalmente, escrevemos, primeiramente, para nós mesmos. Depois é que vem o público. Aí, o que importa a timidez?
Estante: O Luiz Roberto Guedes falou pra nós sobre um livro dele que ficou bons doze anos na gaveta. Você lançou apenas um livro, em 1982 (lá se vão vinte anos!). E só agora retorna à cena. Morte Porca também ficou engavetado muito tempo?
Wir: Morte Porca não ficou engavetado. Ele é composto por uma série de textos, alguns deles já divulgados através do zine "Tiro de Letras", que mantive nos anos 80 e 90, com periodicidade irregular.
Estante: Quanto tempo durou o parto do livro?
Wir: Como eu disse, reuni um série de textos. Agora, tais textos foram escritos nos últimos 10 anos. Então, apesar de pequenininho, o livro, pode-se dizer, gastou uma década para ser gerado. Mas foi só no ano passado que eu o organizei, montei, dei título.
Estante: O seu primeiro livro, A paixão e outras atrofias, sumiu da praça. Trata-se de algo muito diferente de Morte Porca?
Wir: O primeiro livro era de poemas assim normais, versos e tal. Em termos de linguagem, eram outra coisa completamente diferente. Na época, meu grande referencial era a música popular, ecos do tropicalismo ainda. Tem até citação de Torquato Neto. Foi, em parte, editado pelas Edições Trote, da Leila Miccolis, mas, como estava demorando demais pra sair, eu tomei a frente e acabei assumindo a impressão. A qualidade da edição não ficou uma beleza, mas o conteúdo continua me agradando. Muita gente bacana está dizendo pra eu reeditá-lo. Sei lá, produção em verso já não me interessa, embora eu goste do livro. Acho difícil deixar ver alguma originalidade na produção em verso, hoje. Favor não me entenderem mal.
Wir Caetano e Joca Terron no lançamento de
Morte Porca e Animal Anônimo, em Belo Horizonte
Domingo, Setembro 22, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Por que o livro se chama Morte Porca?
Wir: Se observarem bem, dá para ver que há no livro várias situações envolvendo constrangimento, incômodo. Esse constrangimento foi metaforizado, de forma mais nítida, no texto que dá título ao livro e que narra um pequeno drama em torno de uma suspeita de câncer no ânus, esse orifício de onde saem as fezes, sujeira. É bom lembrar aquele verso do Álvaro de Campos: "a alma humana é porca como um ânus". Agora, tem outra coisa: a expressão "morte porca" aparece em um poema de Giuseppi Belli, "A Viúva do Assassinado", no século 19. Mas, no caso dele, em bom italiano, o sentido é mais de "maldita morte". Dou muita importância a essa coisa de título. Mas não que eu seja marqueteiro de mim mesmo. Nada disso. O Marçal Aquino também dá. Genial essa coisa dele de bolar nomes como "As Fomes de Setembro", "O Amor e Outros Objetos Pontiagudos" e por aí vai.
Estante: Quem faz literatura neste país ultimamente? Cite uns caras, uns livros, uns poetas.
Wir: Gosto do Nélson de Oliveira. Bacana demais o Materiaes do Fantini. E o Marçal Aquino, claro. Genial o Faroestes. E gosto das coisas que o Rique Aleixo faz no palco, ele é muito intermediático. Beleza. Adoro o André Sant'Anna. Coisas como "Amor" e "Sexo" são o que há de melhor. Há muita coisa por aí, não me lembro de tudo.
Estante: Antes que os blogueiros perguntem, onde é possível encontrar o Morte Porca?
Wir: O livro pode ser encontrado na Travessa, Scriptum, Ouvidor, Letra Viva e Café com Letras, todas em BH. Ou pode ser pedido pelo meu e-mail: wir_caetano@hotmail.com.
Estante: Valeu, Wir. Como é a pronúncia correta do seu nome?
Wir: Meu nome pronuncia-se "Uir". Não tem nada a ver com o "Wir" alemão. Gosto do nome, porque parece essa coisa de "noigandres", que se fica perguntando: o que mesmo quer dizer?
Domingo, Setembro 22, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
16.9.02
Wir Caetano e a morte da literatura didática
Morte Porca é um livro. Disso eu tenho certeza. Segundo as normas da ABNT, Morte Porca é livro. E é de literatura, segundo as regras de porra nenhuma.
Wir Caetano, o autor, concebeu uma prosa altamente indexada em valores poéticos. E é isso o que gera as incertezas da leitura desse livro de capa escura.
A primeira dificuldade que se apresentou a esta leitora-resenhista foi classificar Morte Porca. É prosa ou poesia? Vai saber... É bom pacas! Um link literário de gênero híbrido. Ah, pra porra com as classificações! É tudo verbo, som, imagem. Comé que alguém ia saber o que é um porco se não tivesse visto e sentido um? E o que pode ser uma morte porca?
O orelhista de Morte Porca, Joca Reiners Terron (poeta e editor que tem o dom da ubiqüidade), chama o texto de Wir Caetano de ¿narrativa-limite¿. Que porra é essa? Isso que dá um poeta falar de outro. Eu prefiro traduzir essa quase seqüência quase poética de quase contos pelo nome de ¿proesia¿. Caetanear com Wir é andar pelas janelas conversando com as tias, bolinando as putas, comendo em sigilo.
Pra destacar um trecho do livro, note-se o ¿conto¿ homônimo, ¿Morte Porca¿, em que se narra um exame proctológico com uma perícia cirúrgica. E na poesia escatológica do trabalho na linguagem, o narrador diz: ¿Um longo filete de sangue deslizou na parede interna do vaso sanitário. / Pensei na astrologia: cu em câncer¿. Cu em câncer foi meu limite entre a prosa de Wir e uma risada disparada histriônica!
Isso é só pro leitor ter idéia do que vai encontrar, além das putas e dos narradores putos de Wir. Pode ler que é garantido.
Morte Porca
Wir Caetano
Selo Zero
Segunda-feira, Setembro 16, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
13.9.02
VEJAM SÓ COM QUEM VOCÊS ESTÃO FALANDO
Luiz Roberto Guedes, Ana Elisa Ribeiro e Joca Reiners Terron
em São Paulo, 19 de junho de 2002,
no lançamento dos livros Perversa e O impostor
respectivamente de Ana Elisa Ribeiro e Ronaldo Bressane
Sexta-feira, Setembro 13, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Entrevista com Estante
Entrevista em dois tomos (porque o Blogger limita o tamanho do texto)
Este blog é feito de resenhas, mas é bom que o acusado se defenda. Sempre. Luiz Roberto Guedes me concedeu uma entrevistícula virtual e aqui está ela. Peço aos amigos que teçam comentários e façam perguntas diretamente no blog. O próprio Luiz Roberto pode responder.
Reparem que ele cita uma série de escritores que considera bons. Grande parte deles estará aqui em nosso blog, seja na forma de resenhas seja na forma de entrevistas. Também podem estar comentando, xingando, complementando ou apenas ¿olhando pelo buraco da fechadura¿.
Estante: Guedes, o que é literatura pra você? Quem é que faz literatura neste país?
Guedes: Modo de representar o mundo. De inventar um. Talvez, modo de passar o mundo a limpo. Deve ser mesmo necessidade biológica. Há elefantes que desenham, chimpanzés e gatos que pintam. Sobre quem faz literatura em Pindorama, muita gente. Luiz Vilela, Marçal Aquino, Reinaldo Santos Neves, Nelson de Oliveira, Ariosto Augusto de Oliveira, Evandro Affonso Ferreira, Sérgio Fantini, Wilson Bueno, Jamil Snege, Marcelo Mirisola, Ivana Arruda Leite, Ronaldo Bressane. Falo do que tenho lido. É até injusto citar uns poucos nomes, porque o Brasil não se reduz, efetivamente, a Rio de Janeiro e São Paulo.
Estante: Quem é a Ana K? Algum fetiche com Anas?
Guedes: Fetiche com moças morenas, de olhos escuros e sobrancelhas espessíssimas, qualquer que seja o nome. Ana K é um fantasma argamassado a partir de uma bella de carne e osso e uns tantos mitos sobre o Eterno Feminino. Ela é um ícone de época, feito aquela "Fulana" de Drummond, do poema Balada do Amor Através das Idades.
Estante: Fale sobre cada um de seus livros de literatura.
Guedes: Bom, minha literatura ainda está por sair da gaveta ou da cabeça. Tenho publicado juvenis, aventuras, como Lobo, Lobão, Lobisomem ou Anjos do Mar, ambos da Saraiva. E poemas para crianças, como os álbuns Planeta Bicho, da FTD. Só em 2000 lancei o Calendário Lunático, um poemário que já tinha seus bons doze anos de gaveta. Também publiquei traduções do poeta cubano José Kozer, em parceria com Claudio Daniel: os livros Geometria da Água, edição do Memorial do América da Latina, e Rupestres, uma bela edição artesanal da Tigre do Espelho, invenção da poeta Jussara Salazar. Em agosto de 2002, lancei Treze Noites de Terror, uma coletânea de contos góticos, revisitação ao "monstruário" clássico. Num dos contos, o espectro de Santos Dumont reclama que o povo brasileiro desconhece que ele, Dumont, inventou também o relógio de pulso. No momento, estou preparando um livro de poemas ¿ também uma 'cápsula do tempo', coleta seletiva de duas décadas ¿, para lançar ainda este ano, se Wall Street se comportar direitinho. Pode chamar-se Almanárquico ou Evento no Deserto. O que você acha?
Sexta-feira, Setembro 13, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Almanárquicoé legal. Há algum livro que você renega? Por quê?
Guedes: Não, não renego nada. Tudo é aprendizado. Tudo é fruto de suor e muitos neurônios queimados. O que é natimorto não vem à luz.
Estante: Quais são os três melhores livros que você leu? Quais são os três top of mind?
Guedes: Só três? Teríamos que ficar com Joyce, Proust e Thomas Mann? Eu te faria uma lista dos 100 melhores. Digamos, à queima-roupa: Memórias Póstumas de Brás Cubas (releio sempre); Sagarana, de Guimarães Rosa; Viva O Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, uma delícia; Nome Falso, do genial Ricardo Piglia; Grana, do inglês Martin Amis. Esses cinco me vêm à mente agora. Mas há coisas extraordinárias, que li recentemente: a novela Rugas, de Sérgio Fantini, em seu livro Materiaes, da Edições Dubolso; os contos de Falo de Mulher, de Ivana Arruda Leite, lançamento recente da Ateliê Editorial. Lembro de outro: Meu Tio Roseno a Cavalo, de Wilson Bueno. Enfim, delírio e rigor não faltam a esta tribo. Vivo na expectativa de novas e mais deslumbrantes surpresas.
Estante: Que lugar a escrita ocupa na sua vida?
Guedes: Receio que ocupe o lugar de quase todas as outras coisas, essenciais. Se você considerar que sou redator publicitário, jornalista ocasional e tradutor, você vê que para mim a escrita é ofício, vivência diária, praticamente um karma. Henry Miller disse que alguém escreve para destilar o veneno que acumulou devido a um modo de vida errado. Se eu não escrevesse poesia e ficção, talvez já estivesse à beira de uma síncope.
Estante: O que lhe vem à cabeça quando alguém fala na Academia Brasileira de Letras?
Guedes: Uma corte de senhores muito cultos e polidos, fardados de Sargeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, tomando chá e discorrendo amavelmente sobre o culto à deusa Inanna (aquela que levantava o vestido), na Suméria, há 7.000 anos. Não é uma delícia? Porque as alternativas são lastimáveis: a Casa dos Artistas ou o Big Bunda Brasil. Quando nossa sociedade tiver mais escola e senso crítico, a ABL terá maior relevância. Sem deixar de ser uma espécie de camarote carnavalesco. "Vai para o trono ou não vai?", como dizia o Chacrinha.
Estante: Obrigada, LR.
Guedes: É um prazer, querida. Foi bom pra você?
Sexta-feira, Setembro 13, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
8.9.02
Calendário Lunático
Calendário Lunático é nome astral do rebento poético do escritor-poeta paulista Luiz Roberto Guedes. O livro faz mais do que portar poesia. O cara escreve enquanto goza. E daí que eu ainda me regozijei ao ler tanta poesia sobre/para/com uma personagem enigmática chamada ana. ana K. Quem sabe ana eu. Ou qualquer ana que o leia e o goze. Ou qualquer ana pseudônima, instantânea, disposta a ser leitora enquanto durar o livro.
Tigranas felinas, brahmas dramáticas; oceanas, anarcanas, semanas. Todas num tom lascivo de putaria poética que muito me apeteceu.
A bela edição bilíngüe (português/italiano) conta com a capa mascarada do poeta Joca Reiners Terron (resenhado em breve) e com o miolo tórrido de L. R. Guedes, poeta das anas, da "mais alta subliteratura", que diz o poeta que é o amor. Ah, uma melodia sinuosa, num texto lânguido. Lendo em italiano ou em português, a mesma delícia semenífera. Úmido e sensível. O leitor se torna cúmplice dessa lascívia pela ana k. A leitora se torna "vecchia baldracca di qualunque canzone". Calendário Lunático pra ler com permissividade. E eu saí de dentro desse livro uma nuova baldracca poética.
Leia-pontocom-pontobeérre.
Calendário Lunático
Luiz Roberto Guedes
Ciência do Acidente

Domingo, Setembro 08, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
3.9.02
NO INÍCIO ÉRAMOS TODOS PICHADORES
No início era o verbo.
Purinho, purinho. Só na voz. Uns falavam, outros ouviam. Até que alguém achou que a memória humana estava ficando sobrecaregada com tantas histórias e inventou figurinhas que poderiam ser pintadas na pedra. Esse cara (ou essa mulher, quem sabe?) teve que pensar não só nos símbolos que usaria, como também no suporte (a pedra, a parede), o material (um graveto, uma tinta). No início éramos todos pichadores.
E essas técnicas foram se consolidando e mudando até dar aqui, neste texto virtual, neste suporte eletrônico.
Papiro e tinta; tabuleta de cera e estilete; pergaminho, pena e tinta.
charta; volumen; codex.
Livro! O livro sustentou a letra feita à mão e à tinta, com pena molhada. Ganhou iluminuras, costuras e notas marginais.
Depois ganhou a tipografia. E hoje compete com a internet.
Mas livros são livros. E esta estante é apenas virtual.
Virtual é pouco. A minha estante real é que me dá prazer!
Bem-vindos a uma de minhas estantes.
Terça-feira, Setembro 03, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro

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