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30.11.02
Propriedades da poesia: altura, intensidade e timbre
Nem toda poesia possui as propriedades físicas necessárias para ficar em pé na estante. Nem toda poesia possui massa, peso e dimensões mensuráveis. Nem toda poesia tem cor e cheiro de livro. A primeira forma de poesia que existiu neste planeta foi a poesia feita de voz. E não era só de voz, esse som vindo do peito de gente, que era feita essa poesia. Ela era também dotada de ritmo e rima (esta minha mania).
A poesia antiga era feita de voz e tinha altura, intensidade e timbre. Não podia ser lida em lugar nenhum, nem mesmo em partituras. Era dita (ou declamada) por uns caras cegos que diziam que sentiam tudo sem ver e, assim, a poesia ficava mais intensa. Esses caras, diferentemente de hoje, eram respeitados, ficavam até famosos e apresentavam seus textos em arenas públicas, falavam alto, faziam verdadeiras catarses coletivas.
A poesia falada precisava ser decorada, por isso era imprescindível que ela fosse rimada, para que o final de um verso lembrasse ao poeta o próximo verso e, nessa cadeia de sons, o cantador não se esquecesse de nenhum. Também era mais fácil de decorar se o poema contasse uma história, tivesse uma seqüência. E assim foi. E não existiam poemas guardados a sete chaves porque não existiam livros e nem as pessoas sabiam ler. Mas ouvir todo mundo sabe. A gente já nasce com os ouvidos preparados, mas os olhos não. Estes precisam ser adestrados.
Até que uns caras inventaram o alfabeto. E muito depois, uns caras começaram a escrever em pergaminho, lá pelo século II d.C. E os livros começaram a rolar. Os leitores começaram a aparecer. Os homens escutavam os poetas cantando a céu aberto e taquigrafavam tudo. E é por isso que sabemos que existiram Homero, Hesíodo e outros afins.
No Brasil, várias tradições ainda existem que são herdeiras dessa aí de cima. Uma delas é o repente, que existe muito no Nordeste. Também há emboladas e outras tradições com nomes engraçados. E elas não ficam em estantes. Mas também já não encontram tanto espaço nas praças públicas.
Algumas dessas tradições foram repousar no papel. Uma delas é o cordel. E resolvi escrever este texto porque ganhei um cordel de um amigo que mora em Recife e fiquei pensando no monte de poesia que não há na minha estante. Depois, esse mesmo amigo me fez um cordel, inspirado em nossa história de correspondência virtual. Um dia eu publico aqui o cordel da incrível batalha entre Jesus e a Perversa.
Por hora, mostro a vocês um poeminha cantado por um caboclo do interior de Minas. Pincei esta pérola oral do livro da Leila Ferreira (aquela que faz o Leila Entrevista aqui no SBT). Estive às voltas com a edição do livro dela e deparei com os versos do ´seu´ Juca Poeta, que a Leila entrevistou numa série sobre o interior do estado.
A angústia do poeta é a mesma, seja escrita ou seja falada.
Eu queria ter um peito
forgado como um salão
brilhano de ouro e prata
cheinho de inspiração
que quando eu desse um suspiro
caísse verso no chão.
Seu Juca Poeta, de Lagoa Formosa, MG.

Sábado, Novembro 30, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
25.11.02
Damazio pelado na Estante
Caros bibliômanos, fiquei devendo a vocês a entrevista com Reynaldo Damazio, o desnudo autor de Nu entre nuvens, aquele livro que tinha um algodão-doce na capa, lembram?
Pois fiquem sabendo que esta incansável e insaciável mineira de negras madeixas foi atrás do poeta e laçou uma entrevista simpaticíssima, culpa dele, claro.
É bom frisar, aqui e agora, que todas as qualidades destas entrevistas devem-se aos entrevistados, que são ótimos e dispostíssimos, porque minhas perguntas... são fraquinhas e anêmicas como elas só.
Damazio encarou minhas perguntinhas com carinho e me tratou com respeito. Foi delicado, carinhoso e gentil, como sói ser a relação entre uma mocinha semi-ingênua e um rapaz poeta que se preze. E Damazio ficou nu, nesta Estante, naturalmente.
Estante: Reynaldo, Nu entre nuvens ocupa que lugar na sua carreira de escritor e editor?
Reynaldo: Ana, este livro talvez seja um desdobramento de meu trabalho com a palavra, como jornalista, editor, tradutor, crítico, etc. Nunca pensei em ser poeta, nem me considero ´poeta´ com aquela consciência de classe toda... Desde que me conheço por gente, lido com a palavra de um jeito meio mágico, meio lúdico. Alfabetizei-me com os contos dos irmãos Grimm, de Perrault e de Andersen. Sempre tive interesse por livros e quadrinhos. Isso não é firula, é sina. Escrever um poema, um conto, um texto de crítica literária, ou editar um bom livro são faces do mesmo processo, em minha experiência pessoal, e me dão o mesmo prazer. Considero o livro um objeto de desejo. Palavras são encantamento.
Estante: Lendo o livro, a gente saca que a metalinguagem acontece o tempo todo. A língua, as palavras e a linguagem são seus temas preferidos, ou não há essa consciência na feitura dos poemas?
Reynaldo: Há, sem dúvida, a consciência de construção (ou manipulação) da linguagem em tudo que escrevo, até no bilhetinho para um amigo. Essa condição é inerente à poesia e ao trabalho de qualquer escritor que se preze. Agora, eu não diria que são meus temas preferidos. A poesia contemporânea, depois de Mallarmé, é metalingüística por excelência, não como tema (significado), mas como operação do significante, como configuração do texto. Poeta é aquele cidadão que mexe com a linguagem, que brinca com ela, que a vira pelo avesso, que trata a linguagem como puta e como irmã, como máquina e como corpo, como divindade e como maldição. Nu entre nuvens é resultado de uma longa maturação, tanto dos textos (enquanto artefatos) como das experiências que os geraram. Ali no poema mais explicitamente metalingüístico está o registro da minha subjetividade, assim como no poema mais prosaico subjaz a pesquisa com a linguagem, implicitamente. No texto que fecha o livro, ¿Fábula para anfíbios¿, por exemplo, essas duas dimensões se conjugam.
Estante: O que você anda lendo de novo? O que tem achado do que aparece na literatura contemporânea?
Reynaldo: Daqueles que poderíamos chamar de ´jovens´, Ronald Polito, Júlio Castañon Guimarães e Tarso de Melo são poetas admiráveis, que estão reinventando a nossa lírica, sob uma chave construtiva muito original. De uma geração anterior, temos dois poetas vivos, e atuantes, que são imensos: Duda Machado e Sebastião Uchoa Leite. O romance Não há nada lá, de Joca Reiners Terron, é do caralho: invenção de primeira. O livro Novo endereço, do poeta Fabio Weintraub, também é muito bonito e me comoveu, embora opere numa dicção diferente da minha. Há outros dois excelentes poetas que eu gostaria de destacar aqui como críticos, nomes que vão marcar o ensaísmo brasileiro: Sérgio Alcides e Eduardo Sterzi, ambos intelectuais refinadíssimos. Poderia alongar a lista, mas o espaço é curto e peço desculpas pelas omissões. O fato é que a literatura brasileira contemporânea está mandando bem, mas não a que aparece na revista Veja ou aquela que vive como subproduto de seriados da tevê. A antologia de poetas dos anos 90, organizada por Frederico Barbosa e Claudio Daniel, dá uma mostra significativa disso.
Segunda-feira, Novembro 25, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Você publica um fanzine chamado Zinequanon. Os zines fazem efeito ainda? A pergunta se deve ao fato de a gente ter visto muito zine na década de 80, menos na de 90 e quase nada hoje em dia. Ainda é eficiente?
Reynaldo: O efeito é minúsculo, como um vírus sorrateiro que vai contaminando aos poucos. Fazer um zine hoje é um ato
maluco de resistência, junção do anárquico com o artesanal, mas é por isso mesmo que vale a pena. O grande barato está na atitude, na realização de um objeto estranho, sem sentido comercial e mesmo midiático, forçando situações inusitadas de leitura e de circulação de textos. O que está por trás dessa utopia insana é o amor pela literatura. Você não mencionou o site Weblivros, que criei com o webdesigner Ricardo Botelho e que dirijo há quatro anos. Dá um trabalho danado e fazemos pelo prazer de fazer. O retorno, porém, tem sido maravilhoso. O mesmo acontece com o zine. As pessoas que conhecem, acabam curtindo e querem participar. Coisa de guerrilha poética, ou cultural, se você preferir. Muitas vezes, é por tais atalhos inesperados que corre o oxigênio de invenção.
Estante: A circulação de poesia é complicada, mas de vez em quando chega às nossas mãos um poeta contemporâneo de língua espanhola ou de qualquer outro canto. Há alguém escrevendo lá fora que você verteria para o português?
Reynaldo: Precisamos desbravar a América Latina. Editei, no Memorial da América Latina, livros do cubano José Kozer e do uruguaio Eduardo Milán, ambos representantes da melhor poesia latino-americana contemporânea. Meu xará (tocayo) Reynaldo
Jiménez e Aníbal Cristobo são jovens poetas que leio não só para aprender o idioma, como para reaprender a poesia. Conheci recentemente duas poetas muito interessantes: a uruguaia Circe Maia, que tive o privilégio de ver/ouvir lendo poemas em São Paulo, e a peruana Blanca Varela, através do poeta Horácio Costa. Talvez traduza a primeira e edite a segunda. Ando ensaiando traduções do chileno Nicanor Parra e do cubano Lezama Lima, poetas fundamentais em qualquer língua ou cultura. Adoraria traduzir o chileno Gonzalo Rojas e muitas coisas do norte-americano Langston Hughes, deste último traduzi alguns poemas que saíram no primeiro número da revista Cacto. O poeta catalão Joan Brossa, traduzido por Ronald Polito e Sérgio Alcides, é uma de minhas descobertas literárias mais acachapantes nos últimos tempos. De novo, poderia ampliar a lista infinitamente.
Estante: Diz pra nós aí sua listinha topten.
Reynaldo: Ana, essa é a pergunta mais difícil. Digamos que seja a lista deste momento: Adília Lopes, Orides Fontela, Max
Martins, Martin Heidegger, Sérgio Buarque de Holanda, Luiz Costa Lima, Haroldo de Campos, Raduan Nassar, Zeca Baleiro e o Corinthians. Perdoe o ecletismo, mas são alguns nomes que me ocorrem de imediato. Ficou tanta gente importante de fora! Beckett, Cioran, Kafka, Drummond, José Paulo Paes, Neil Gaiman, Will Eisner...
Estante: Obrigada, Reynaldo! Vamos todos ficar nus entre nuvens.
Reynaldo: Você me deixou nu aqui, Ana. Com muito charme e delicadeza. Valeu.
Reynaldo Damazio (vestido, no primeiro plano, colecionando livros de poetas mineiros,
sentado numa cadeira da Livraria da Travessa, em Belo Horizonte,
por ocasião do lançamento dos livros de Joca Reiners Terron e Wir Caetano)
Outra coisa: Tem uma superentrevista com o escritor Sérgio Fantini no link de convidados do Patife. É só ir em www.patife.art.br
Segunda-feira, Novembro 25, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
20.11.02
Ler é como comer manga com leite: faz mal
Miguel de Cervantes Saavedra é aquele cara que escreveu Dom Quixote de La Mancha, numa época em que as pessoas carregavam nos seus o nome do lugar de onde vinham. A Mancha era a terra do fidalgo mais famoso do mundo. É mais ou menos como se eu fosse a São Paulo beber num bar e as pessoas me conhecessem e me apresentassem como Ana Horizontina ou Ana Mineira. Mas isso não cola muito. (Lembrei-me de Ana de Holanda, que teve um suposto caso de amor com Nassau... essas Anas...).
Dom Quixote foi escrito durante muito tempo e publicado em 1602. É importante pensar no que isso significa considerando o contexto do livro: depois das Grandes Navegações, depois da imprensa de Gutenberg. Os meios de publicação e distribuição da obra eram, então, ainda mais precários do que hoje (para a literatura).
Cervantes fez algo interessante com Dom Quixote: entre outras coisas, o livro zombava das novelas de cavalaria, que eram livros que funcionavam mais ou menos como nossas novelas globais atuais.
Como eram considerados livros menores, com histórias menores, nada educativas e nada moralizantes, além de livros escritos em língua popular (e não em latim), essas novelas foram condenadas e espalhou-se sobre elas a notícia de que quem as lia muito podia ficar louco, insano, ter a ridícula idéia de tornar-se um herói, sair pelo mundo cavalgando um pangaré, salvando donzelas e pessoas indefesas de monstros que, na verdade, eram moinhos de vento. Ou seja, quem lia muito as novelas de cavalaria podia ficar alucinado, condenado, doente mental.
Essa triste notícia foi largamente difundida pelo mundo, que andava já bem ampliado, e arrastou-se pelos continentes ao longo dos séculos. Culminou com minha avó, agora, no século XXI, me dizendo, com uma expressão muito séria, que era pra eu parar de ler demais, caso contrário, poderia acabar louca, além de encalhada. (Além de a leitura fazer mal, uma mulher lendo causa ainda mais estragos, sacaram o fator sexismo?)
Minha avó também diz que ler depois de comer faz mal, comer manga com leite faz mal e que o marido nunca pode ver a esposa nua. Tudo bem. É minha avozinha. Deixa ela.
Dom Quixote era um leitor contumaz. Assim como todos os visitantes desta Estante. E quem vai dizer que estamos ficando todos loucos? Pode ser que sim. Pode ser que não pelos mesmos motivos.
Eu, por exemplo, tenho certeza de que o tanto de Coca-cola que tomo me prejudica muito mais do que os livros que tenho lido. Será que O Impostor ferrou algum axônio meu? Morte Porca deve ter desligado meus dendritos! Nu entre nuvens deve ter estuprado minhas mitocôndrias. Ah, putz!, minha área de Broca deve estar completamente lesada depois de ler o Trívio!
Eu detesto comer manga. Também não tomo leite porque sou alérgica. Mas garanto que ler depois do almoço nunca me causou indigestão (a não ser que a comida estivesse ruim, não o livro... dependendo do livro) e garanto que fiquei muito mais louca com vodca do que com poesia.
Ah, Cervantes! Fala sério! Mas que o Dom Quixote é um desses livros que a gente tem que ler, ao menos uma vez na vida, ah! Isso é!
Dom Quixote e Sancho Pança
por Pablo Picasso
Quarta-feira, Novembro 20, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Capítulo I
Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha
Num lugar da Mancha, de cujo nome não me quero lembrar, vivia, não há muito tempo, um desses fidalgos que usam lança em hastilheira, adarga antiga, cavalo magro e galgo corredor. Panelada de algo que era mais vaca do que carneiro, guisado na maioria das noites, ovos fritos com torresmos aos sábados, lentilhas às sextas-feiras, filhote de pombo bravo como acréscimo aos domingos consumiam três quartos da sua fazenda. O resto dela, preenchiam-no uma capa negra e lustrosa, calças de veludo para as festas, com pantufos do mesmo pano; e os dias intermediários da semana honrava-os com o seu finíssimo vellorí*. Tinha em casa uma ama que passava dos quarenta, uma sobrinha que ainda não chegara aos vinte e um moço do campo e praça que tanto selava o cavalo como empunhava a podadeira. A idade do moço fidalgo beirava os cinqüenta anos: era de rija compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça. Dizem uns que levava o sobrenome de Quixada, ou Quesada, mas há nisso alguma discordância entre os autores que escreveram sobre o caso, embora conjeturas verossímeis nos deixem entrever que se chamava Quixana. Mas isso pouco importa ao nosso relato: basta que, no curso da narrativa, não nos afastemos um ponto da verdade.
Cumpre saber que, nos momentos de ócio (que eram os mais numerosos do ano), o sobredito fidalgo se punha a ler livros de cavalaria com tanto empenho e gosto, que quase por completo se esquecia do exercício da caça e da administração da fazenda; e a tanto chegaram sua curiosidade e desatino, que vendeu muitas jeiras de terras férteis para comprar livros de cavalaria, levando para casa todos os que pôde obter. Dentre estes, nenhum lhe agradou mais que os compostos pelo famoso Feliciano de Silva**, porque a clareza de sua prosa e aquelas intrincadas razões suas lhe pareciam magníficas. Ainda mais encantado ficava quando lia os requebros e cartas de desafio [...].
[...] Louvava o autor o fato de acabar o livro com a promessa de uma aventura infindável, e muitas vezes lhe veio o desejo de tomar da pena e finalizá-la ao pé da letra, como ali se prometia; sem dúvida o teria feito e ali o lograria, se outros maiores e contínuos pensamentos o não estorvassem. [...]
Para concluir: embebeu-se tanto na leitura, que a ler passava as noites de claro em claro e os dias de turvo em turvo; com o muito ler e o pouco dormir se lhe secou de tal maneira o cérebro, que perdeu o juízo. Impregnou-se-lhe a imaginação de tudo o que nos livros lia, feitiçarias, contendas, batalhas, desafios, ferimentos, requebros, amores, tormentas e disparates impossíveis; e de tal modo se lhe afigurou verdadeira toda a trama de sonhadas invenções que lia, que não havia para ele no mundo histórias muito certas.
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. v. 1. Trad. Almir de Andrade e Milton Amado. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1998.
Quarta-feira, Novembro 20, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
16.11.02
Impostor paulistano baba no herdeiro
Ronaldo Bressane apareceu em Belo Horizonte, em junho de 2002, para lançar seu Impostor, livro parente do meu Perversa. Até mesmo os nomes dos livros pareciam sintonizados. O Impostor e a Perversa formavam uma dupla de imposturas poéticas.
As redes de contatos entre as pessoas, especialmente entre pessoas de uma mesma área de atuação, têm crescido e se fortalecido (numa entropia infinita) por meio da Internet. A Rede tem possibilitado que se ouçam vozes portadoras dos mais diversos sotaques, conforme confirma Bressane nesta entrevista, quando ele cita pessoas de tudo quanto é canto do país em plena produção literária.
Talvez ainda haja necessidade de um centro de produção, mas a internet já deu uma aliviada nos eixos, na medida em que põe em contato gente espalhada, como ocorre na Fraude (revista eletrônica que Bressane cita como um celeiro de talentos).
Bressane, contista a priori e poeta impostor, tenta manter a fama de mau nesta entrevistícula, mas se trai quando cai babão em cima do Lorenzo, recém-nascido herdeiro do céu poético bressaniano.
Estante: Bressane, prosa ou poesia? Qual é sua expressão mais fácil? Você ficou mais conhecido pelos seus contos, certo?
Sábado, Novembro 16, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Bressane: Comecei escrevendo prosa de ficção. Depois, crônicas pra jornal de colégio, aquela besteirada que depois a gente se envergonha. Poesia só fui escrever mesmo no laboratório de criação do Gílson Rampazzo, que freqüentei por 7 anos, de 1988 a 1995. Lá, a gente começava por exercícios de linguagem, passava por poemas, daí cenas, então crônicas, e finalmente contos. São dessa época, 1990, meus primeiros poemas. Antes já tinha escrito ficção, como alguns contos de Os infernos possíveis, meu primeiro livro. Minha expressão mais fácil é ficção, com certeza - poesia dá um puta trampo. Joguei fora uns 900 poemas, feitos em 12 anos, até chegar nos 49 do Impostor.
Estante: Qual é o conceito do Impostor? Por que ele tem esse nome?
Bressane: O conceito do Impostor é uma espécie de sintonia fina do que proponho como estética. Está no primeiro verso: "O que está fora, sou". O eu-poético do livro de poesia, bem como o eu-narrador dos livros de contos, é um ser mutante, tanto na forma [o que é mais evidente na ficção] quanto no conteúdo. Nunca me interessei por perseguir um estilo fixo na forma ou um conteúdo absolutamente coerente com minha história de vida ou com minhas intuições estéticas ou com minha imaginação. Aliás, acho que coerência é uma boa virtude para máquinas, não para homens. Não vejo sentido em ter um estilo, em pleno 2002. Sinto minha linguagem ser ultrapassada por todas as vozes que me antecederam e todos os ritmos contemporâneos. Minha ética é a do [des] mascaramento em abismo. O Impostor é um polvo dissolvido em mil olhos. E tem a ver com o que minha vó falou sobre mim, quando eu nasci: "mas que cara de impostor!".
Estante: Quem está na sua estante de livros? Quem você tem lido ultimamente?
Bressane: Alguns doidos desconhecidos e geniais da literatura brasileira: Uilcon Pereira [A implosão do confessionário], José Agrippino de Paula [PanAmérica], Maura Lopes Cançado [Hospício é Deus]. A biografia do Orson Welles, esse maravilhoso impostor, escrita pelo Peter Bogdanovich. E V, do Thomas Pynchon, que arrasto há alguns meses. Os poemas do Cacaso e da Adília Lopes, relançados agora pela Cosac&Naify com a 7Letras, em antologias state-of-art. Terminei também de ler ótimos livros de contistas contemporâneos: O que é ser rio, e correr?, do Alberto Guzik, e O livro das cousas que acontecem, do Daniel Pellizzari. E gostei muito do Cheiro do ralo, do gênio cartunista Lourenço Mutarelli. Perco minhas retinas também numa porrada de blogs, derivas internéticas, HQs, jornais de todos os cantos e todo tipo de revista lixo, como a Caras...
Estante: Quem são os escritores que influenciaram a sua escrita?
Bressane: Eu já falei isso e falo de novo: não acredito em influência. Não persigo nenhuma linhagem de escrita ou de estilo. Tem tantos escritores que foram importantes para me fazer escrever quanto músicos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, vagabundos, atores, bandidos, idiotas em geral... o topten de hoje será totalmente diferente do topten de amanhã. Então, melhor não citar ninguém.
Estante: Quando foi que você começou a escrever? A escrita criativa não se choca muito com seu trabalho de jornalista?
Bressane: Comecei a escrever com uns 3 anos. Ficção, lá pelos 12 - lembro que escrevi um romancinho de detetive, inspirado no Escaravelho dourado, do Poe... ainda bem que perdi esse caderninho, assim não envergonho minha mãe. Agora, a sério mesmo, coisa que eu acho que vale a pena, só lá pelos 17. Não acho que criação se choca com o jornalismo. No meu caso, foi até um detonador de idéias: graças ao jornalismo, sou forçado a me enfiar em universos que, se fosse só um escritor de apartamento, não me interessaria. Sem falar que a procura pela frase justa no jornalismo me fez focar melhor minhas idéias. Tenho mesmo uma personagem, o Zed Stein, que é um jornalista que, de tanto se meter em dados inúteis, se viciou em informação e acabou enlouquecendo - ou escapando para uma espécie de universo paralelo - , transformando-se no Agente Especial, protagonista de meu conto ´Road movie noir´, que está nos 10 presídios de bolso.
Sábado, Novembro 16, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Você está na revista Coyote número 1, daquele pessoal de Londrina. Essa Coyote falou em algumas mulheres escritoras. Na TPM de setembro, você incluiu uma resenha do meu livro, o Perversa, e do livro de uma Ana italiana. Você tem contato com a produção feminina na escrita atual?
Bressane: Na medida em que surjam mulheres escrevendo coisas legais, vou ler. Se tiver preto escrevendo, gay escrevendo, homens verdes de 7 dedos e 3 olhos escrevendo, anões albinos rodesianos escrevendo, vou ler. Não quero saber de onde vem: se for bom, vou ler. Não acredito em literatura feminina - acho isso uma estupidez. Acredito em seres-com-xoxota que escrevem. [Aliás, acredito mais em seres-com-xoxota do que em seres sem]. Desses interessantes seres, fora você, que eu curti [o livro, digo], gosto muito da Ivana Leite [Falo de mulher], da Clarah Averbuck [Máquina de pinball], da Cláudia Tajes [Dores, amores e assemelhados], e sempre dou uma olhada no site da Índigo - diga-se de passagem, um dos primeiros sites literários do Brasil [www.jhendrix.net/indigo]. Além disso, como te falei, ando meio apaixonado pela portuguesa Adília Lopes, que tem uma poesia prosaica muito divertida e profunda, pelo mistério Maura Lopes Cançado, prodígio da loucura que ficou esquecido nos anos 60, e pelos Cantares da Hilda Hilst, que fez, na minha humilde, alguns dos poemas mais bonitos que seres-com-xoxota já fizeram, desde Safo, que, aliás, adorava uma.
Estante: Falando na Coyote, como é que andam as produções contemporâneas dedicadas à literatura nova? A Coyote tem feito barulho, e é uma galera de Londrina. Os meninos da Livros do Mal, em Porto Alegre. Quê mais?
Bressane: Porra, tem muita gente, e sempre há o risco de eu não citar alguém e esse alguém ficar meio puto. Então, vou falar de um cara só, que é um carioca meio surtado que eu conheci via net, e que escreve pra caralho, mas que, deprimido com a situação no país onde mora - a gélida Lapônia, na Suécia -, anda em crise criativa, e tem me deixado preocupado: o Jorge Cardoso [que, aliás, tem um conto genial nessa Coyote 2]. Vão lá no blog dele e vejam por si mesmos: http://www.elixirmarimbondo.blogger.com.br.
Estante: Você acha que São Paulo ainda é mais efervescente do que os outros lugares do país em termos de literatura emergente? Gente nova?
Bressane: Acho que aqui acaba meio que virando o centro dessa merda toda porque a maior parte das editoras, mesmo as menores, estão aqui. As revistas e jornais de maior circulação também, além das grandes agências de propaganda. Ou seja: além de atrair quem tem grana, SP atrai quem tem criatividade. E SP é um pólo que magnetiza e fixa muita gente não-nascida aqui, como o cuiabano Joca Terron, o mineiro André Sant'Anna, o sertanense Marcelino Freire, o guairense Nelson de Oliveira, a portoalegrense Clarah Averbuck, o curitibano Bruno Zeni, e por aí vai, só pra falar nos ´novos´. Em ficção, tirando o JP Cuenca, tenho visto pouca coisa interessante [não é o caso da poesia, onde o Rio sempre foi muito consistente]. Do Paraná, tem poeta pra cacete, nem consigo citar, além de um dos mais importantes jornais literários do Brasil, o Rascunho, mas poucos ficcionistas realmente novos - os bons das antigas mereciam ser mais conhecidos: Cristóvão Tezza, o grande Jamil Snege e o genial Manoel Karam [que, aliás, é catarinense]. De Minas, conheço você, o Sérgio Fantini, o Wir Caetano e o Sebastião Nunes [este, mais das antigas]. De Recife eu tenho pouca notícia em literatura, e olha que conheço a cidade muito bem. Bahia eu não sei nada, o Ceará tem um ou dois caras. Pará tem o Edyr Augusto [Moscow, puta livro]. Agora, se tiver um ´pólo´ a ´competir´ com SP [desculpe os termos meio babacas] é Porto Alegre, de onde saíram os caras da Livros do Mal, a Clarah, a Claudia, o Altair Martins, o ótimo poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, e muita gente boa que escreveu no extinto fanzine Cardosonline e no site Não [www.nao-til.com.br], dos melhores e mais antigos sites literários na webrasileira. Tem muita coisa sendo feita no Sul que nem chega aqui - nem todos os gaúchos se interessam em sair de lá. Assim, acho que SP cumpre hoje o papel que era do Rio de Janeiro nos anos 60. E me preocupa, em pleno século 21, a gente ter que precisar de um eixo. Gostaria que isso fosse mais descentralizado. Detesto essa idéia de centro. Aliás, assim que der, escapo daqui...
Sábado, Novembro 16, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Realmente, dizer que no século XXI a gente ainda precisar de um centro é babaquice. Em plena era internética... se bem que esse encontrão de gaúchos, mineiros, nordestinos, paulistanos, etc. tem muito a ver com a net. Já é um efeito dessa descentralização lenta. Não acha? Joca me conheceu melhor na net. E deve ter mais gente se conhecendo via net. Um dia a gente vai poder morar na putaqueopariu e isso não vai fazer a menor diferença.
Bressane: Mas é isso mesmo. Essa talvez seja uma novidade absoluta dessa geração: o desenraizamento. Por mais que o Pellizzari, o Benvenutti e o Galera escrevam em portalegrês, eles são tão urbanos e exilados quanto o pernambucano Marcelino, o carioca JP Cuenca, o cuiabano Joca ou este paulistano aqui. Há um ´sentimento de exílio´ geral. Outra característica interessante que poderia servir de elemento agregador a esses caras seria uma ausência de xenofobia ou, ao contrário, uma falta de preocupação com nacionalismos, regionalismos, patriotadas - coisa que era muito importante para os modernistas, como caráter formador da arte, e mesmo para a prosa de ficção pós-moderna, que, a meu ver, começou com Guimarães Rosa nos tropicalistas 60. Podemos ser universais, cosmopolitas, urbanos e até regionalistas, de acordo com o que se quer em determinado texto, de acordo com o que pretende expressar o indivíduo. Mas alguém que pense num ´texto brasileiro´ fatalmente pedirá um rótulo de ´ingênuo´ na testa [além do sorvete].
Há autores que levam essa ´marginália globalizada´ mais longe, de modo aberto, como o Joca Terron; os que até tentam mascarar isso com a ética reacionária de seu ´eu-narrador´, como o Mirisola [que, aliás, nunca viu um mouse na vida], mas não conseguem; os que dissolvem o regional dentre as referências urbanas, como o Marcelino; os que flertam descaradamente com o pop americano sem esquecer o lugar onde vivem, como o Cuenca e a Clarah; os que pretendem recuperar certas características do regionalismo em certo suburbanismo, como é o caso do Ferréz [uma tese minha é: essa tal de ´literatura marginal´ feita nas prisões e periferias é o novo regionalismo, posto que aferrada a modos arcaicos de produção e à linguagem fechada dos guetos]; e até os que estão em pleno processo de dissolução de fronteiras lingüísticas, como o Jorge Cardoso e o Wilson Bueno [de Mar Paraguayo]
Com certeza essa descentralização está sendo acelerada por novos processos de editoração [o autor hoje faz o próprio livro, vide Joca Terron e os Livros do Mal] e de divulgação [vide a coleção ´5 minutinhos´, do Marcelino, e sites literários em geral]. Dentro em breve, aquela formuleta apoiada no poema de Alberto Caeiro, que prega ao autor que ´cante o rio de sua aldeia para ser universal´ poderá ser transformada num ´cante o riverrun da web para ser individual´. Quanto tempo levará para chegarmos a uma literatura desvinculada da língua portuguesa?
Estante: A quantas andam seus projetos? O que você pretende daqui pra frente?
Bressane: Quero terminar minha trilogia de contos - faltam só 2 - e, quem sabe, publicá-la no ano que vem. O título é Céu de Lúcifer. Tem também algumas antologias de que vou participar, mas isso só falo quando e se sair. Vou entrar também em algumas revistas, jornais e sites, como colunista, articulista ou contista anômalo [já escrevo umas besteiras políticas no www.fraude.org, aliás, belo celeiro de jovens craques]. Quero finalizar um livro de contos bem experimentais [alguns estão lá no Elixir do Jorge, sob a alcunha Faker Fakir]. E tenho escrito muitos poemas - mas os poemas me demandam muito mais tempo e necessidade de epifania: ou eu faço de uma vez e daí vou lapidando, ou eu começo e depois jogo fora. Conto não, conto dá para escrever durante uns 10 anos e manter a necessária intensidade. Estou seriamente pensando em começar um romance, mas dele não vou falar nada. Queria também escrever minha autobiografia, mas a babação em cima do meu filho recém-nascido tem me tomado muito tempo...
Estante: Valeu, Bressane, pela entrevista eletrônica.
Bressane: Valeu você, queridona. Se precisar de algum esclarecimento, pergunte. E continue cometendo mais adoráveis perversidades...
Sábado, Novembro 16, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
13.11.02
Impostor com código de barras
Quando é que se pode atingir o que se quer com a palavra?
A resposta a essa pergunta deve estar no coldre de Ronaldo Bressane, que mira o meio do sema e atinge um sentido inteiro quando elege temas do amor e do cotidiano na megalópole para incrustar nos poemas d´O Impostor.
Ao beber vinho como se fosse somente vinho, Bressane escreve como se fosse apenas escrever, quando, na verdade, fornece ao leitor minicontos e imagens de Bianca sapateando ao som de Billie Holliday, beijos que fazem doer os lábios e o filho que herda o céu inesperado.
O Impostor não é lírico renitente, não tem manias 70´s e não se parece com nada. Eis o que é bom. Tudo isso, embora Bressane ofereça sonetos espaçados e poéticas de cremação do amor (na expressão perversa do poeta, editor, contista, designer, professor e o escambau, Joca Reiners Terron).
Mas não posso deixar de mencionar o poema Súplica de um velho na taberna, que me deu muito surto de prazer e muita vontade de compor uma versão para mulheres. Ainda sim, ainda não.
Vão ler O Impostor, enquanto nem todos os livros do mundo são queimados ou viram bytes e eletricidade na Internet.
O Impostor
Ronaldo Bressane
Ciência do Acidente
Quarta-feira, Novembro 13, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
8.11.02
A POETA EM SURTO
Quando eu escrevo, escrevo para sanar uma coisa que me acontece por dentro. Esse é o primeiro motivo, e é suficientemente forte. Apenas ele bastaria para justificar os poemas, os contos, as crônicas. Mas ele também justificaria diários e cartas de amor. Portanto, preciso de mais motivos para explicar por que razão publico os textos que escrevo.
Quando publico o que escrevo, penso em ficar na inteligência coletiva para além do meu corpo, para o tempo além do que depende de eu estar viva para que ouçam minha voz. Penso no mínimo que me poderia fazer pensar que sou infinita, talvez uma ninfa imortal, uma sacerdotisa poética. Esse mínimo é um poema. Um poema que, se lido hoje, amanhã ou séculos adiante, reverbera minha persona poetisa. Publico para entrar na ciranda das pessoas que se acharam injustiçadas por não serem retornáveis como as garrafas de vidro.
Quando percebo que lêem o que publico, fico acesa. Ficam meus sentidos móveis e percebo quando falam de mim. Ai de mim se falam bem. É uma pequena felicidade de segundos. Mas se não falam, constato meu domínio, meu limite, meu avesso, meu terreno grilado, a fronteira da minha terra cultivada com a fronteira estética do outro. E respeito. Mesmo se ele não me respeitar, eu o respeito.
Percebo que, ainda que o outro não tenha gostado do meu mínimo imortal, o livro exerceu sua função, que é a de ser lido. Chegou aos olhos ávidos d¿alguém, só não obteve boa fama. E ainda isso será motivo de discussão, porque um outro alguém ávido terá lido e terá gostado do meu pouco exíguo chão de letras.
Quando alguém me diz que gosta e me pergunta o que foi que eu quis dizer, eu reivindico meu direito de querer ter dito exatamente aquilo que disse. Quando escrevo, não penso em levantar lírica, discussão, reflexão. Quando escrevo penso justo naquilo, e escrevo um cruzamento fértil de sentidos para que alguém desloque um pouco da linguagem que fala para o espaço da linguagem que sente.
Quando escrevo, penso nas palavras, mas elas me vêm hipertextuais. Vêm coligadas, plantam-se. Não penso no além delas. Penso nelas, na música, no ritmo e adoro uma rima. Não dou um poema por acabado enquanto ele não me cede a rima que tem, sempre tem. Quando não rima, ao menos uma vez, parece-me mutilado. E quando as sílabas podem ser lidas quase cantadas, aí é que me dou por satisfeita e me regalo.
Quando escrevo, penso por escrito. Não calculo, não domino, não limo, não burilo. Quando escrevo, tenho dito.
Sexta-feira, Novembro 08, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
4.11.02
Beijo na boca
Esses poetas têm mania de morrer bem na hora H! Cacaso foi um poeta mineiro, de Uberaba, que viveu precisamente entre 1944 e 1987. Mas a poesia dele ficou aí, em livros esgotados, em letras de música.
Ele fez parte da geração de poetas marginais da década de 1970. Escrevia poemas de amor e de crítica em plena ditadura militar. E a editora 7 Letras resolveu reeditar esse Beijo na boca. Livrinho singelo, com ilustrações do próprio Cacaso e poemas deliciosos.
Tá certo que às vezes o leitor sente aquele pessimismo dos poetas românticos, aliás, Cacaso brinca o tempo todo com os poetas do romantismo (séc. XIX). Ele remete a Casimiro de Abreu, a Gonçalves Dias, mas ele brinca, parafraseia, relê. Na verdade é um poeta pós-modernista, sem peias, sem eira, nem beira, sem rima, apenas bem-humorado e romântico. Daquele romantismo de quem estava meio cansado desses amores que não dão certo. Olha aí:
o meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente.
Mas um pouquinho de esperança nos amores e muita sensibilidade na poesia.
Beijo na boca
Cacaso
7Letras
Segunda-feira, Novembro 04, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro

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