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31.12.02
Caríssimos Estantômanos,
agradeço a vocês pelo carinho com que trataram este blog-estante e pela paciência de virem aqui ler estas linhas bibliófilas sempre que dava. Sabemos que a internet é imprecisa e vasta, mas navegar é isso aí.
Valeu a pena. Embora esta Estante tenha apenas alguns meses de vida, ela já deu frutos, vendeu livros, colecionou entrevistas interessantes, divulgou literatura (o que é sua maior vontade) e até saiu no jornal! Obrigada aos amigos Francisco Mendes e Carlos Herculano Lopes, pela cobertura jornalística importante. E obrigada aos leitores mais assíduos, Marize, Joca e Léo. Beijos provocadores nos leitores que não se manifestam, apenas passam para dar uma espiadinha.
Essa história de ´idade´ de blog não cola. As coisas, na internet, são muito mais ágeis e efêmeras. Talvez isso seja comparável à idade dos cães com relação à dos homens. Entenderam? Pois é. Este blog vai ficar velho muito antes dos livros resenhados aqui, por isso, continuem publicando, continuem produzindo e continuem me mandando livros pra resenhar.
A Estante de livros on-line dá uma paradinha pra recarregar e volta com mais uma resenha de poesia contemporânea. Desta vez, um mineiro velho de guerra que continua ganhando as batalhas contra deuses e diabos. E pretendemos que a Estante sobreviva a 2003 com muito gás.
Feliz ano novo. Sorte, saúde e sucesso.
Terça-feira, Dezembro 31, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
24.12.02
Os avestruzes de Joca Reiners Terron
João Carlos Reiners Terron poderia ter sido apenas mais um livro na Estante, mas não foi. Quando li o poema da página 20 do Eletroencefalodrama, ´Primeiro movimento´, pensei: tenho que dizer a esse cara que o que ele escreve é legal. E começou aí a amizade com Terron, com a literatura de Terron e com o editor da Ciência do Acidente. Isso já faz dois anos.
De 2000 para cá, Terron tem sido prolífico tanto na função de escritor quanto na de editor. Lançou a novela Não há nada lá, o poemário Animal anônimo e tem projetos para 2003, além de ter participado de antologias e ter lançado mais um monte de gente legal.
Se tudo isso não desse certo, o plano do cara era criar avestruzes. Será que Joca é, como poeta, um excelente criador de avestruzes? Acho que não.
Estante: Joca, você entrou nessa praia da literatura pela poesia. O Eletroencefalodrama foi seu primeiro livro. Você já tinha publicado poesia antes? Em revistas, suplementos...?
Terron: Não, antes de 1998 (ano em que editei o livro), nem me passava pela cabeça publicar. Aí, um dia, aqueles dejetos desorganizados começaram a me incomodar, então fiz. Antes dele publiquei um poema num jornal da faculdade e outros três num zine que fazia, o Cão. Lançar o Eletroencefalodrama me fez muito bem, pois aquele era um período em que eu estava afogado em trabalho escravo, sendo explorado, recém-mudado pra São Paulo e com pouca gente interessante pra conversar. O livro serviu pra fazer novos amigos e, de quebra, semear a idéia da Ciência do Acidente na minha cabeça. Por outro lado, acho importante publicar em revistas antes de fazer livros. As publicações literárias servem para que testemos a mão e pra avaliarmos a recepção dos textos, além do fato de revistas e zines sempre reunirem pessoas interessadas no mesmo assunto em torno delas e isso causar um certo movimento. Esse movimento que deve ser importante pros artistas novos, as discussões, opiniões contrárias, trocas de leituras, tudo isso é estimulante e positivo e deveria ser a primeira preocupação de um autor, não publicar um livro.
Estante: Depois do Eletro, você encarou lançar o Não há nada lá, que é prosa. Depois lançou o Animal anônimo, que é poesia. O que você sente na produção de prosa e poesia e o que você sente na recepção de cada uma pelo seu público?
Terron: Quem escreve poesia pra mim são os meus sentidos. Não é algo que eu tenha sob controle. É necessidade fisiológica, o organismo pede, eu vou lá e solto os dejetos. Prosa é outra história, é uma dificuldade constante. Exige um aprendizado interminável, olhar arguto, revisões sem fim. E é obsessiva, obsedante. Narrar algo é tão envolvente quanto deve ser pro leitor, você quer chegar ao final do livro pra ver como é que acaba a história. De qualquer forma, literatura é uma moléstia, te afasta das pessoas que você ama, é uma espécie de doença da imaginação. E poesia é um ato concentrado de comunicação, que pode encantar uma determinada pessoa e fazer com que uma outra odeie aquilo. Eu procuro sempre fazer poemas odiáveis e criei uma espécie de escudo invisível quanto à opinião dos outros, não quero nem saber, mesmo quando a leitura é positiva, me constrange e faz mal, então não me importo se tenho público ou não, se um dia terei ou o que devo fazer pra ter. Minha grosseira noção do que é a literatura não me permite enfiar outros indivíduos nessa cumbuca. Somos só eu e minha dependência da leitura e do desejo de expressar o que busco. E o alívio final da escrita, a adrenalina necessária pro sedentário de carteirinha aqui sentir alguma coisa, além de cãibras e calafrios.
Estante: Você sente muita diferença na produção do Eletro e do Animal?
Terron: É como fotografia velha, né? Olho pro Eletro e vejo um cara lá com vinte e tantos anos, os fantasmas daquele tempo me assombrando. E têm os procedimentos técnicos, de escrita, que são coisas que a gente supera e cria por elas uma espécie de nojo. É como cruzar com aquele tio de que você não gosta muito, mas é parente, pertence à sua vida, não dá pra evitar. Com o Animal anônimo também, é a mesma coisa, apesar de estar mais próximo. Eu simplesmente esqueço as regras particulares que uso pra organizar um determinado livro ou seção, então aquilo fica meio opaco com o passar do tempo e nem eu sei o que me moveu a agir daquele jeito. No caso do Não há nada lá, às vezes me pergunto como é que escrevi aquilo. Minha dinâmica é a da busca, então, quando faço um livro (sim, por vaidade pura, pra que todos vejam e diagnostiquem a minha singularidade, etc.), já estou em outra viagem, à procura de um enigma diverso pra me entreter. O único problema é que a literatura tem me entretido demais, e às vezes começo a perceber como pode ser fácil o escapismo, como o ato da escrita pode ser um mecanismo de fuga, ou pior, de alienação, de automarginalização. A vontade do escritor em tal transe é se trancar consigo próprio, mas a vida ´normal` não lhe permite isso, sempre existirão os almoços em família, o papo fático no trabalho, a discussão sobre as últimas notícias dadas pela moça do tempo. É fácil pirar, sendo escritor. Um profissional liberal qualquer tira o guarda-pó e vai pro boteco, afogar as mágoas. Já a literatura não pára de chacoalhar a imaginação do verdadeiro escritor, a não ser que ele seja um burocrata, o tal ´escritor profissional`. Não quero nunca ser um profissional, o que eu quero é metabolizar meus sonhos. E os pesadelos também. O dia que esvaziar, esvaziou: vou criar avestruzes em Mogi das Cruzes.
Terça-feira, Dezembro 24, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Você tem mantido um blog, o Hotel Hell (www.hellhotel.blogger.com.br). O que você pretende com ele? Como aqueles contos são escritos? Direto no template do blog?
Terron: A idéia era escrever rápido, rasteiro e sem convenções, de forma meio ´errada`. Escrevo direto no blog, mesmo, numa sentada, e depois reviso um detalhe ou outro. Queria, inicialmente, que fossem contos, mas aí começaram a aparecer uns personagens e eles tomaram conta da ´narrativa`. São uns personagens meio estrambóticos, de um mundo estranho, sujo e violento. Então aquilo virou um folhetim descoordenado, e estou ansioso em saber o que vai acontecer, já que não faço a menor idéia do que pretendo. Se eu acreditasse em alguma coisa, diria que é o meu inconsciente se manifestando por meio de um blog. E virou um vício, blogs são viciosos demais. Imagine, há uns anos, antes do meu primeiro livro, eu escrevia e não mostrava pra ninguém. Hoje posso escrever diante dos outros e não fico com vergonha. Devo mesmo estar enlouquecendo.
Estante: Quem são os caras que você lê? Quem são os caras que você leu e marcaram sua produção e sua vida?
Terron: Eu leio muito, desde muito cedo. Então é a soma dessas leituras, a velocidade delas e as informações discrepantes que cada uma me fornece o que me interessa. Mas, se é pra citar, figuras fundamentais pra mim são Edgar Poe, Valêncio Xavier, Jerome Charyn e Roberto Piva. E uma centena de outros, as leituras da infância, os quadrinhos. Putz, a sensação de ler Tom Sawyer ou a Ilha do Tesouro! Nessa época eu morava no Alto Araguaia, então aquilo era o meu Mississipi, o meu Pacífico. Eu até tinha um Huckleberry Finn, só que o nome dele era Zé Brás, o pai dele era garimpeiro e a mãe, lingüiceira. Me considero uma espécie de elo perdido, sabe? O meu pai só foi comprar uma televisão quando eu tinha quatorze anos. Antes disso, boa parte das cidades em que vivemos só tinha luz elétrica até as 19h, depois era luz de lampião. Então o negócio era cultivar minha coleção de cobras (tinha mais de vinte, enroladas em vidros com formol), encher garrafa com vaga-lumes ou colocar escorpião pra brigar. E ler, ler e ler. Agora estou devorando a obra completa do poeta espanhol Leopoldo María Panero, uma novela de uma romena chamada Aglaja Veteranyi (obra única dela, que se matou em 2001, aos 39) e Phutatorius, romance do Jaime Rodrigues (carioca que publicou só um romance e desapareceu). Eu gosto é dos esquisitos.
Estante: Quem são as figuras novas que têm atraído a sua atenção? Esta é uma pergunta até para o editor Joca Terron, nem tanto para o escritor.
Terron: Mais esquisitos. Tem um cara genial chamado Jorge Cardoso (mora na Suécia, tem 29 anos e é inédito), uma mistura de Antonio Fraga com Quentin Tarantino, e quero publicar o seu Nightclub (contos) ano que vem. Tem o João Paulo Cuenca, que também é muito legal (ele tem um blog que parou de escrever chamado Folhetim Bizarro, publica no Fraude e na revista Ficção). Tem o João Filho, um baiano que mora numa cidade às margens do São Francisco e tem umas coisas ótimas (um livro de poemas chamado Bostiário e uma novela, Encarniçado), tudo inédito, claro. E tem um monte de gente legal, a cena é muito frutífera. A partir de março de 2003, editarei uma revistinha semestral (ela também servirá de catálogo pra a Ciência do Acidente) chamada ´meuPIGmeu ¿ o menor magazine do mundo`, onde divulgaremos os novíssimos, resgataremos um veterano e apresentaremos um autor estrangeiro novo que esteja fazendo algo parecido com o que se faz no Brasil atualmente. No primeiro número, teremos José Agrippino de Paula (com um conto esquecido, dos anos ´70), e Wir Caetano, Daniel Pellizzari, João Paulo Cuenca, Jorge Cardoso, Ronaldo Bressane, Marcelo Benvenutti, Daniel Galera e a gringa Aglaja Veteranyi.
Estante: Como foi que surgiu a Ciência do Acidente? A editora tem sido apontada como uma das iniciativas mais corajosas e de mais qualidade neste país. Como você encara isso?
Terron: Surgiu do nada e ruma a passos largos pra lugar nenhum, graças à minha incompetência pra gerir um negócio. A qualidade se deve às pessoas que consegui cooptar, enganar, seduzir, etc. Espero que elas me perdoem um dia. Mas tem sido um prazer enorme colaborar com tanta gente legal e poder servir de canal de divulgação.
Estante: Quais são seus projetos pra 2003? Vai lançar mais livros?
Terron: Lançarei coisas da Ciência, se o capeta permitir. Glauco Mattoso (Manual do Podólatra Amador Atualizado), Valêncio Xavier (O corpo do sonho, um livro genial que prometo há dois anos e não saio de cima), Clarah Averbuk, a única popstar talentosa que eu conheço, e mais coisas. E pretendo lançar dois livros meus, o primeiro de contos (A memória é uma curva de rio sujo), em março, e Hotel Hell, a novela ou sei lá o quê, no final do ano. Sairão também algumas antologias de ficção de que participarei (revista PS:SP, editada por Nelson de Oliveira, Marcelino Freire e JR Duran, com doze ficcionistas atuantes em São Paulo, e Geração 90: os transgressores, pela editora Boitempo, também editada pelo Nelson, com dezesseis outros autores participantes) e Cities of Chance, uma coletânea com poetas brasileiros e americanos contemporâneos, editada por Flávia Rocha e Edwin Torres, a ser lançada pela Rattapalax Press, de Nova Iorque.
Estante: Obrigada pela entrevista virtual, Joca.
Terron: De nada, Ana. É sempre muito legal papear contigo.

Terça-feira, Dezembro 24, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
19.12.02
Dramas eletroencefálicos urbanóides
Há dois anos conheci o Eletroencefalodrama de Joca Reiners Terron, lançado em 1998. Naquela época, havia mais dificuldades para encontrar esse tipo de revelação em livrarias. Só mesmo garimpando muito para conseguir chegar ao poeta mato-grossense radicado em São Paulo.
Eletroencefalodrama é uma pancada nessa poesia cheia de trelelés que tem por aí. O poema da top fodel me deixou com síndrome do pânico. ¿Quando eu morrer, quero ser um livro¿, e Joca Terron resumia minhas pretensões mais celulósicas. O poeta, como se não bastasse ter escrito essa pedrada poética, ainda era o dono do projeto gráfico, da diagramação e da editora, a Ciência do Acidente. O livro é do caramba. O cara parecia ser de outro planeta.
Quatro anos depois, no agosto apocalíptico de 2002, Terron lança Animal anônimo. Entre víboras sibilantes, cães reencarnados em sabão, metrópoles cinzentas, testes de Rorscharch e desamores corrosivos, o poeta renova sua poesia num livro gris sobre gris, incluindo capa e miolo.
Terron parece ter olhos e sensibilidade especializados em enxergar o grandioso, o externo, o veloz. E fala como quem assiste a tudo ao mesmo tempo (agora), numa narrativa fragmentária de impressões incomodadas. Para o leitor, os poemas funcionam como lentes de aproximação. Tiram, por alguns instantes, do parco metro quadrado em que vivemos e levam para um tour alucinante e dinâmico. O poeta compõe uma seqüência quase narrada de poemas que muito lembram filmes de curta-metragem, pequenas e impactantes películas em p&b.
Animal anônimo é um corpo dividido em três partes: a homônima ¿animal anônimo¿, ¿museu das espécies perdidas¿ e ¿música não-primata¿. Em todas elas, porém, um traço peculiar do timbre incomodado do poeta: personagens pouco humanos, sem identidade ou propriocepção, em paisagens estáticas, enfumaçadas, metrópoles inóspitas até.
Em bem-feitas suturas poéticas, o autor demonstra perícia e imprudência para articular cenas de criminosos DJ¿s em favelas, ralos entupidos por cabelos, dentes e honra, desejos impraticáveis, sexo, drogas e amor anti-romântico, seqüestros-relâmpago, terrorismo nas torres gêmeas e metalinguagem.
É pancada de impacto. Mal infinito. Pedregoso e legível. Cenas poéticas rejuntadas com cimento. Melhor, é um livro a que o leitor assiste. Portanto, compre o ingresso e não saia da sala de projeção enquanto não subirem os créditos.

Eletroencefalodrama e Animal anônimo
Joca Reiners Terron
Ciência do Acidente
Quinta-feira, Dezembro 19, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
13.12.02
Logo lógos na geral
Domingo, dia 8 de dezembro deste ano de capicua, o fanzine mais amarelo do mundo foi lançado no Café com letras, bar-livraria localizado na legendária Savassi, em Belo Horizonte.
Logo lógos é ideado por Ana Elisa Ribeiro, dona desta estante, e efetivado por Cristiane Linhares, dona de sabido talento para a programação visual. Tá certo que a idéia de fanzines é velha, talvez remonte, de maneira mais agressiva, aos anos ´80. Ana Elisa ainda chupou a retomada da idéia a Reynaldo Damazio, feitor do Zinequanon, que circula em Sampa.
Mas, as mineirinhas anti-inércia resolveram dar um toque "cheguei" ao fanzine e meteram logo um papel amarelo, umas fontes bonitonas, scanners de coisas inusitadas e roubaram umas imagens legais para ilustrar o Logo lógos #1.
Nesta edição, colaboram a escritora Ivana Leite, o poeta Luiz Roberto Guedes e a poetisa curitibana Greta Benitez. Sem saber, uma argentina chamada Ana Porrúa foi traduzida para o português pela cara-de-pau de Ana Elisa Ribeiro e a inédita Ana Carolina Freire resolveu dar as caras a tapas com dois poemas roubados às suas gavetas.
Logo lógos propõe que Belo Horizonte veja a luz da nova literatura (ou da velha) e propõe que os poetas inéditos resolvam editar, pelo menos num zine. Também contaremos, a partir do #2, com ilustradores voluntários de peso: Cris (o cara), Marilda Castanha, Nelson Cruz, Cláudia Jussan e Angelo Abu, para começar. O #1 teve Poty e Toulouse-Lautrec chupados.
No segundo número já estão previstos Joca Reiners Terron, com uma tradução, um conto e a participação no Bonus track (depoimento), Wir Caetano, Ricardo Rabelo, Jim Dodge, Fabrício Marques e a inédita Flávia Péret. Isso deve acontecer em azul, na segunda semana de janeiro 2003.
O jornal Estado de Minas, pelas mãos de Carlos Herculano Lopes, já deu uma forcinha. Fiquem de olho! E estamos abertos a quem quiser colaborar! logologos@patife.art.br
Capa do Logo lógos #1
A poetisa Flávia Péret lê Logo lógos
Cristiane Linhares (sentada) e Ana Elisa Ribeiro parem o zine num domingão
Sexta-feira, Dezembro 13, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
8.12.02
O quarto venusiano de Miriam Portela
Miriam Portela é a autora de Nos mares de Vênus, um in octavo vermelho, com uma foto de mar na capa, que traz dentro um vulcão em forma de eu lírico feminino.
O/a leitor/a abre o livro e escorre uma lava viscosa, um sêmen vermelho, prolífico, uma poesia em sussurro, com temas ligados às relações amorosas entre machos e fêmeas do Homo sapiens apaixonado, ou desapaixonado, iludido ou desiludido.
Na entrevista, a autora confirma a sensualidade dos textos.
Estante: Miriam, fale de sua literatura, dos livros que você lançou, para que nossos leitores conheçam melhor a poeta dos Mares de Vênus.
Miriam: Ana, Nos mares de Vênus é o meu quarto livro de poesia. Tenho outros três publicados, dois pela Universidade de Santa Catarina e um pela Massao Ohno Editora, chama-se O continente possuído (o primeiro), Doces rios do medo e No fundo dos olhos. Faz algum tempo que eu não escrevo poesia. Nos mares de Vênus são poemas antigos, de 90 a 95, com poucos elementos novos. Comecei a escrever muito cedo, desde que aprendi que podia escrever e que esta era uma forma de me colocar no mundo. Poesia mesmo, eu comecei, como quase todo mundo, aos treze anos, e é um exercício que mistura dor e prazer. A poesia exige uma entrega total.
Estante: Qual é o espaço da escrita na sua vida? Desde quando você escreve?
Miriam: Acho que já respondi um pouco. Hoje em dia, eu tenho escrito livros infantis. Já tenho dois publicados e o terceiro está a caminho. É muito gostoso escrever para crianças. É um público que te questiona e te cobra, pelo menos, essa é a experiência que eu tenho tido nos nossos encontros. Acabei de escrever, este ano, um livro adulto que não é de poesia. É uma experiência nova e foi reveladora. O texto é bem poético, mas sem as limitações da poesia. São fragmentos, flashes, quase insights.Chama-se Relato dos corpos sutis.
Estante: Quem você tem lido ultimamente? Quais são as suas impressões da literatura contemporânea?
Miriam: Eu leio bastante e de tudo. O que me surpreendeu nos últimos tempos é a literatura indiana, escrita por mulheres. Li livros maravilhosos como O deus das pequenas coisas, Irmã do meu coração e A Senhora das Especiarias. Mas andei relendo clássicos infanto-juvenis, como Sherlock Holmes, Jack London, Mark Twain, Leio tudo o que me cai nas mãos, ou quase tudo. No intervalo, leio e releio os clássicos. No momento, estou matando as saudades de Virginia Woolf, em As Ondas. Tem um escritor irlandês que escreveu Quatro cartas de amor,que é uma das melhores coisas que eu li nos últimos tempos. Acho que a literatura contemporânea, como toda a cultura contemporânea, sofre de uma grave falta de inspiração e de excessos de elementos de fácil digestão, o que a torna quase descartável, por isso prefiro mergulhar em águas mais profundas e conhecidas.
Domingo, Dezembro 08, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
Estante: Sua poesia, pelo menos em Nos mares de Vênus, tem um apelo lírico e erótico, ao mesmo tempo. Você concorda com essa descrição?
Miriam: Vou te contar uma história. Há algum tempo, meu marido, que é um internauta assíduo, descobriu um site de poesia portuguesa erótica e lá estava eu. Me diverti muito, primeiro porque não sei como eles descobriram o meu livro, segundo porque não era um poema erótico, podia ser sensual, mas só isso. Não escrevo com nenhuma intenção, mas não reprimo a criação. Se ela fala de uma sensualidade, de um erotismo, é porque esses elementos lhe cabem.
Estante: Como você sente a recepção do seu livro?
Miriam: O livro vai ser lançado agora, dia 2, em Florianópolis, e depois em São Paulo. É um livro sobre a paixão. Talvez, uma tentativa de exorcizar e compreender esse estado de alma, passando por todos os terrores e êxtases que ela nos proporciona. Acho que parte dessa emoção passa para as pessoas. É um livro ousado, no sentido de não medir as palavras, nem os sentimentos.
Estante: Você tem encontrado interlocução com AS poetas do seu tempo?
Miriam: Infelizmente, não.
Estante: Obrigada, Miriam. A Estante conta com você.
Miriam: Foi um prazer.
Galera, desta vez, não tem foto. Pardon.
Domingo, Dezembro 08, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
4.12.02
POROS ABERTOS
Peguei o livro vermelho, meti-me dentro do escafandro de leitora atenciosa e mergulhei Nos mares de Vênus, da catarinense Miriam Portela.
Esperava encontrar mitologias, mas encontrei mesmo um mundo subaquático de minúcias de uma mulher que, delicada e decididamente, verte seus poros transbordantes em asas, e estas em poesia, ou seja, linguagem: Vende-se um par de asas/uma camisola branca/e toda uma variedade de incensos.
No início de toda mitologia há um verbo, e uma ação, conforme uma teogonia segundo a qual Vênus é nascida do pênis de Zeus e da espuma do mar. Os poemas de Miriam Portela são um híbrido de tom confessional e timbres sagrados, como se fossem sussurros de deusas e ninfas ardentes, todas em cochichos pós-coito, alívios post mortem (a petit mort dos franceses orgasmáticos), de virgens felizes (por)que perderam o lacre.
Nos mares de Vênus é um mergulho surdo pela pele de um corpo túrgido, quase eruptivo.
O leitor, à medida que entra no livro, adere ao clima úmido da poesia. Vive uma experiência de espera eterna, suga o presente dos versos, aguarda o amanhã venusiano: Amanhã/não sei./Não soube/ontem./Mas hoje é certo/hoje é/para sempre.
Vermelho, afrodisíaco, lírico. Quem, dos leitores de Miriam Portela, for homem, vai enxergar o fumegar dos poros da deusa exausta de um prazer ansioso. Quem for mulher, vai reconhecer-se uma (ou todas) dessas mulheres: Espelho meu/diz-me/quem sou eu./Espelho amigo/revela-me/quem é esta/que vai comigo?
Nos mares de Vênus
Miriam Portela
Editora Terceiro Nome
Quarta-feira, Dezembro 04, 2002
Publicado por Ana Elisa Ribeiro

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