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Esta estante fica reservada aos livros de que gosto, às resenhas dos livros que curti ler, aos comentários sobre livros bons e ruins, às críticas à má literatura, aos trechos geniais de obras conhecidas e desconhecidas, aos meus textos, aos textos de amigos que fazem da escrita seu modo de vida, às entrevistas que farei com escritores e, eventualmente, aos comentários sobre música e cinema.







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30.3.03


Noites no boteco cuspindo sangue
Álvares de Azevedo ainda em tempo

Se é pra falar de beatnik, por que não falar de uns brasileiros que viviam à míngua e à margem, tudo pra fazer estilo?
Essa história de chapar todas, cheirar até pó de mico e morrer aos 22, completamente violado e cancrado, é velha que nem os manuscritos do Corão. Álvares de Azevedo era um moço pacato, até se tornar poeta e ler Lord Byron, no século XIX. Daí deu pra escrever uns versos sobre morte, amor e satanismo e morreu cedo, de tuberculose, que era a doença mais fashion que existia na época.

Morrer de Aids dá muito mais ibope hoje. Beber já não levanta ninguém. E as drogas atuais não existiam, como tecnologia, na época de Álvares A. Mas o que rolava já era suficiente pra tornar aparentemente decadentes os poetas daquele século.

Azevedo escreveu uma série de poemas, tudo publicado postumamente, como sói ser no Brasil. E as coisas estão mudando, a passos lentos.

Só que Noite na Taverna é prosa. E talvez isso explique a velha moda de as pessoas perguntarem aos poetas ´puros´: e aí? Quando é que você vai publicar prosa?

Azevedo encarou a prosa pelo lado do sinistro. Noite na Taverna não é um romance e nem um livro de contos. Trata-se de várias narrativas, contadas por narradores de nomes diferentes (com nomes estrangeiros), alinhavadas por um ambiente de taverna (substituível, hoje, por um boteco copo-sujo) em que os garotos contam suas proezas sexuais e satânicas.

Azevedo usa aquele português empolado, mas faz do livro um volume legível em qualquer época. Ler Noite na Taverna hoje é atual pacas. E surpreendente.

Azevedo pertenceu à geração que a História da Literatura convencionou chamar de Ultra-romântica. Uns caras que traficavam poetas deprê da Europa. E achavam legal andar vestidos de preto, ter a pela branca como cera, ser anêmico, ter icterícia, beber todas & outras e morrer tuberculoso, cuspindo sangue pelo nariz e chamando o maldito nome da amada.

Mande ver. Mas leia com o livro a meio metro do rosto. O Bacilo de Koch (Mycobacterium tuberculosis) pode surpreender você.


Noite na Taverna
de Álvares de Azevedo
Publifolha
Domingo, Março 30, 2003



26.3.03


intervalo para vomitar
da série Maledettos Berdinazzi

ai meudeus, senti meu sangrado coração dando uns saltinhos descompassados, feito veado que ainda não saiu do armário, e caí de dor, fui tendo assim um prolapso poético dos mais graves, e também ele era agudo, isso tudo apesar do salário fodido, da vida de menina, de morar aqui, de ser neste bairro, apesar dos Estados Unidos da América existirem e apesar dos remédios contraceptivos; apesar de ter perdido o Daniel e os dois Eduardos, de ter sido estúpida com o Gustavo e paciente demais com o Bruno. Também apesar dos edemas na córnea e dos distúrbios mentais que me fizeram sonhar com um médico que eu não conheço, nunca existiu, e eu estava ali, no hall do consultório faraônico dele, e ele quase me beijava, constrangedoramente, na frente de dois dos meus amigos, aí meu telefone celular tocou bem na minha orelha, no meio da tarde calma, na Renascença, feito uma sirene da guerra mandando eu me esconder, que já é hora de alguém me carcar pelas costas; nem acreditei quando tocou a musiquinha do Rappa [me deixaaaa!] no meu telefone, e isso significava que alguém da esfera do meu trabalho ligava pedindo socorro, ou que eu tinha feito alguma cagada no texto de algum infeliz que escreve pior do que eu; o dono da empresa de diagramação interrompeu aquele meu beijo no médico que eu não conheço; aí eu pensei que, pela primeira vez, tinha visto o rosto do sujeito no sonho; mas eu não atendi ao telefone, achando que o rosto do cara parece muito com o do Leo, aquele menino que parece pouco amigo do Rafa, mas é um cara bom e simpático, e me deu um beijo carinhoso, mais carinhoso do que tudo, na bochecha esquerda, na hora de ir embora do enterro triste do Alysson, que morreu com três balas na cabeça, depois de tentar apartar uma briga ali na Catalão; e eu nunca havia ido a enterro de policial; soaram as sirenes de todas as viaturas enquanto as pessoas subiam a ladeira, em cortejo, acompanhando o caixão; e na hora que o corpo desceu os sete palmos, eu me assustei com muitos tiros dados pela Civil e meus pêlos, que são tantos e tantos, se arrepiaram; e eu queria ir embora logo, mas antes de ir, ganhei um beijo que esquentou aquela minha alma triste de perder um amigo pra uns bandidos da favela do Sumaré; e eu fiquei morna por dentro, me enrosquei na jaqueta jeans novinha e fui pro carro sentindo um vento frio cortando meus cílios enormes; acho que, enquanto isso, alguma sirene soava no Iraque; mas a guerra aqui é mais urgente, minha cidade perdeu mais um amigo meu; e eu posso encabeçar a lista dos próximos que levarão azeitonas na cabeça, porque já me disseram pra parar de dirigir sozinha, de madrugada, abrir o portão às cinco, na rua deserta, andar de vidro aberto, parar em sinal, sair de casa; mas eu ia em direção ao carro, fugindo da tarde no cemitério, enquanto queria que todos os cânceres do mundo fizessem origens e metástases no Galo Cego, o maldito que baleou meu amigo; mas o cara da diagramação da Revista Médica me ligou bem na hora em que eu ia saber quem era o médico que me beijava; e eu tinha uma reunião marcada para dali a quinze minutos; e me deu um prolapso poético bem na hora de sair; pinguei meu colírio, coloquei meus óculos escuros, acertei meu relógio Dumont, enfiei-me dentro da alça grande da minha bolsa Arezzo que custou o preço de um aluguel de apê de dois quartos no São Lucas, meu jeans velho e fodido, o fone de ouvido do celular, desci as escadas e fui pra a rua, desafiar a lista dos violentados pela cidade edemaciada.

ps. depois descobri que o dono da empresa de diagramação tem olhos azuis e é médico; e descobri que os caras que mataram meu amigo eram de classe média, fizeram intercâmbio nos EUA e vivem melhor do que eu. Estão presos por latrocínio e vão morrer logo.
Quarta-feira, Março 26, 2003



21.3.03


Casal... é aquilo
copo com conteúdo lancinante

Um copo de cólera não podia mesmo ter outro nome. Não poderia ser outro recipiente de raiva (uma jarra, uma garrafa, um balde) e nem outro sinônimo de ira. A medida exata é esse copo emborcado, de um ódio tórrido que surge entre duas pessoas que insistem em se amar, apesar de serem duas e viverem juntas (pensando que podem ser uma).

Um copo de cólera, de Raduan Nassar, foi escrito num jorro de linguagem e exibe para o leitor um dia de um casal comum. A manhã cheia de hálitos, abluções e transas, banho morno, pele branca, odores sexuais; a tarde cheia de brigas, a cólera desperta por uma bobagem (que, para um casal, torna-se o fim do mundo); e a noite com as pazes, reconciliação de ódio & amor, como sói ser.

A linguagem áspera & rápida tem a velocidade das discussões acirradas entre pessoas inteligentes, casais interessantes, se é que isso existe. E o livro não passa de cem páginas, forradas por uma capa vermelho-sangue, simples assim. E o leitor senta uma vez só e sorve o livro, num trago ascendente.

Tendo cuidado para não engasgar, Um copo de cólera é dos melhores goles que nossa literatura já teve na adega. Vá lá.

ps. ah, e existe o filme. Mas leia o livro primeiro, senão você vai ficar, o tempo todo, imaginando o Alexandre Borges e a Júlia Lemertz enquanto lê o livro, e isso não é legal.


Um copo de cólera
Raduan Nassar
Cia. das Letras
Sexta-feira, Março 21, 2003



17.3.03


Lasca de pedaço

Informação apriorística importante: laská, em tcheco, significa amor. Depois disso, ler Lascas, do curitibano Ricardo Schmitt Carvalho, fica muito menos fragmentário e ranhurado. Diferente de lasca em português, que significa naco arrancado e tosco.

O livro, lançado pela editora Medusa, de Ricardo Corona, é um apanhado de poemas que tratam, de maneira recorrente, de amor [embora daquele jeito lascado] e de mitologia. Um panteão greco-romano invade o mangue e dança ao redor da fogueira pop de Chico Science, que Dionísio o tenha. E Ricardo [o Schmitt] se contorce em poemas que falam de um amor bom, até saudável, se é que isso existe.

A impressão que me fica ao terminar de ler os poemas é a de ter obedecido a uma placa de aclive acentuado. Os primeiros poemas me passaram batidos, até que cruzei com ´herdade´, início de uma série meio pais&filhos, mas poética até o talo.

´eticaótica´ merece destaque, merece mesmo: ´que eu seja vão e veja mal / aceito / que eu beije a mão e meta o pau / é fato´. ´autodesagnóstico´ enfia o dedo na ferida e roda: ´será meu problema falta de fé? / não creio´. E daí uma série meio plana de poemas que lembram formatos concretistas [e disso eu assumo que tenho preguiça], a série alada dos perseus & mitológicos, e as palavras de Schmitt escapam por entre os dentes, entredentes como Torquato às vezes, e até um Cacaso de leve: ´guria // namora comigo // preciso // desse / perigo´.

A série ´américa´ encara os slogans nikeanos e embaça o ameríndio empertigado. E eu não poderia deixar de comentar a série ´drummonstro´, rindo à pampa do nome muito próprio. Enquanto o poeta mineiro, como muitos, focalizava mais o problema do que as soluções, mais o buraco do que os arredores, Schmitt curitibaniza: ´em volta da pedra / (migalha de pão) / tinha um caminho // nunca mesquecerei disso´. E a falta de atitude dá lugar a uma releitura arrependida: pulasse a pedra ou espalhasse migalhas de pão para marcar o caminho de volta.

Lascas é isso, mas não tem caminho de volta. E o leitor se arrepende de não tê-lo lido antes enquanto empacava em pedregulhos do caminho.


Lascas
de Ricardo Schmitt Carvalho
Medusa
Segunda-feira, Março 17, 2003



14.3.03


FREDERICO DE MARQUINHA, DEITADO NA REDE, DANDO ENTREVISTA

Depois de curtir as praias do Nordeste, queimadinho e com marquinha de sunga, Frederico Barbosa deu uma entrevista para esta Estante. O cara é tremendamente simpático e gentil, ao contrário do que pôde parecer na minha resenha sobre a antologia Na virada do século, que é o assunto preferencial aqui.

Quem não se lembrar mais, até porque esta Estante está uma zona, completamente fora de ordem, pode verificar a resenha nas semanas anteriores e rever o que se disse sobre a antologia da editora Landy, que Barbosa fez junto com Cláudio Daniel. E lenha na fogueira:

Estante: A intenção da antologia Na virada do século é clara: juntar a galera que produz poesia na virada XX-XXI. Que critérios vocês utilizaram para juntar esse povo todo?

Frederico: Escolhemos 46 poetas entre os muitos cuja obra conhecemos. É importante lembrar que com vários deles nunca tínhamos entrado em contato pessoalmente. Ou seja, não eram ou são nossos ´amiguinhos´. O critério foi sempre o da inventividade. Não no sentido poundiano, de ´poetas inventores´, pois esses são muito raros, raríssimos. Mas no sentido de escolher aqueles cujo trabalho está em sempre procurar reinventar a linguagem, procurando novas saídas para os dilemas da linguagem e da vida.

Estante: É difícil o processo de selecionar e publicar uma antologia?

Frederico: Dificílimo. Se ´poesia é risco´, escolher poesia é um risco duplicado. E certamente comentemos injustiças, involuntárias, é claro. Não me arrependo de ter deixado de fora nenhum poeta. Alguns poetas bastante festejados não entraram: foi consciente. Como já declarei algumas vezes, essa antologia não tem qualquer pretensão de ´neutralidade´. A pretensa ´neutralidade´ é o refúgio mais comum dos covardes e dos oportunistas. Dizendo-se ´neutros´, destilam os piores venenos e preconceitos possíveis. Veja-se a ´neutralidade´ (chovam aspas) com que uma boa parcela da universidade trata a poesia contemporânea. A diversidade de fato marca a poesia presente na antologia, mas as duas vertentes poéticas mais comuns no Brasil contemporâneo foram sistemática e intencionalmente ignoradas: a poesia bem-comportada, bonitinha mas ordinária, dos neoparnasianos arcaizantes, que se dedicam a criar requintes postiços e defender o retrocesso e a gratuidade retratista, ingênua e simplista dos neodrummondianos redutores. Sinto apenas não ter descoberto, ao fazer a antologia, alguns poetas que só viria a descobrir mais tarde. Poetas muito interessantes, como os paraibanos André Ricardo Aguiar e Antônio Mariano Lima, a curitibana Greta Benitez e você mesma, Ana Elisa Ribeiro, cujo excelente livro Perversa só tive a oportunidade de ler depois. Mas talvez tenha a chance de fazer uma nova edição... com os acréscimos devidos.

Estante: Devem rolar altas intrigas, né? Uns que não querem entrar porque são inimigos de outros; gente que foi esquecida e morreu de ódio; gente que foi lembrada e morreu de tédio. O que rola nos bastidores da seleção antológica?

Frederico: O ambiente literário, que eu saiba, é sempre assim, muito podre. Isso me faz constantemente querer pular fora, desistir, parar de escrever ou publicar, como já o fiz durante sete pacíficos anos. Mas eu e o Cláudio Daniel, felizmente, realizamos todo o trabalho de pesquisa, seleção e edição nos mantendo fora de qualquer intriga. Jamais iria publicar um poetinha medíocre porque ele é editor de algum jornal ou importante em algum centro cultural, como muitos o fazem. Escolhemos poetas e poemas criteriosamente: era o que todos deveriam fazer.

Estante: Se até os pais têm preferência por um filho em detrimento de outros, imagino que os antologistas também tenham suas preferências. Quem você destaca na antologia?

Frederico: Como já disse, todos os poetas foram escolhidos por seus méritos. Portanto, é difícil destacar este ou aquele. A parte de antologia que ficou exclusivamente a meu encargo, a dos poetas inéditos, no entanto, é a que me orgulha mais. É claro que alguns resenhistas já criticaram essa iniciativa, mas publicar poetas extraordinários, como Amador Ribeiro Neto, André Dick, Jorge Padilha, Micheliny Verunschk, Paulo César de Carvalho e Takeshi Ishihara, que ainda não haviam tido a chance de publicar qualquer livro, foi o que me deu maior satisfação. Desde então, o André Dick já publicou seu primeiro e belo livro, Grafias. Na Coleção Alguidar, que fundei no ano passado para a Landy, já estão agendadas, para este semestre, as publicações dos livros de estréia do Amador, da Micheliny e do Paulo César. Pretendo publicar, se possível ainda este ano, os livros do Takeshi e do Jorge Padilha, que, por sinal, está fazendo todo o projeto gráfico interno dos livros da Alguidar.

Estante: Como você analisa a cena literária atual?

Frederico: A cena literária atual está como sempre esteve. A mediocridade sempre foi o que apareceu mais na mídia, nas revistas, nas discussões, nos prêmios, etc. É bom lembrar que durante algumas décadas, em que estavam em plena produção Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes e João Cabral, entre outros, o milionário editor Augusto Frederico Schimdt é que era considerado pela maioria como o ´maior poeta do Brasil´. Quem o lê hoje? A coisa continua igual. Sei que muita coisa boa está sendo feita nos subterrâneos, enquanto triunfam os medíocres, os endinheirados, os poderosos de ocasião, os bajuladores, os poetas que são críticos de encomenda com suas idéias de aluguel. Mas o futuro escolherá o que vai ler.

Estante: Uma jornalista mineira esteve nos eventos de Fortaleza sobre poesia e voltou dizendo algo interessante: que a mesa-redonda dos poetas encheu o saco, foi o maior chororô de ´não vende´, ´não tem estímulo´, e tal. E que a mesa dos prosadores foi animada, cheia de perspectivas, etc. O que você acha disso? Será que o chororô dos poetas mal-vendidos é anterior ao problema mercadológico? Será que a prosa vende mais mesmo? Você conhece algum prosador novo que esteja vendendo pilhas de livros?

Frederico: Eu acho que o a choradeira não ajuda em nada. Temos que colocar a mão na massa e trabalhar. Creio que o maior problema na venda de poesia está na distribuição. A maioria das editoras não banca a edição de livros de poesia: os poetas em geral pagam a própria edição e a distribuem entre os amigos... Fica uma coisa muito pouco profissional. As próprias editoras, que não precisam recuperar o investimento (já que não o fizeram) pouco se interessam em distribuir os livros. Nesse sentido, o advento de uma coleção de poesia como a Alguidar, editada pela Landy, é bastante diferenciada. Nenhum poeta paga nada pela edição, e a editora se interessa, e muito, na distribuição e nas vendas. É bem diferente do que ocorre nas outras editoras que publicam poesia, não?

Estante: E você? Fale dos seus livros, dos seus poemas.

Frederico: Prefiro convidar os leitores a conhecerem meus livros, que estão, na sua totalidade, no meu site: http://sites.uol.com.br/fredbar/ . Lá, encontrarão também diversas entrevistas em que comento minha obra e o panorama geral da poesia. Apareçam!

Estante: Obrigada, Frederico!

Frederico: Eu é que agradeço a oportunidade. Parabéns pelo blog de altíssimo nível e por sua poesia tão contundente e rara.

Nada a ver com a entrevista
Só pra reportar: o debate com Fabrício Marques no Centro de Cultura Belo Horizonte funcionou legal. Mês que vem tem mais.
O Logo Lógos # 3 está quase nascendo. É só a Cris descansar bastante até amanhã à noite.
O Rodrigo, da Compumed, é um filé.
Sérgio Fantini fica muito bem de bonezinho vermelho.
O site do Carlos Herculano Lopes está lindo, e será divulgado em breve.
Os 10 escritores contra a fome estão se preparando para a noitada.
Eu quero um livro do André Dick, alguém me arranja? Alguém trafica?


Sexta-feira, Março 14, 2003



11.3.03


JANELA DO CAOS
Fabrício Marques na mira e os leitores mineiros no parapeito

Lembra daquele fanzine que é lançado todo mês em Belo Horizonte? O Logo lógos? Pois é, deu cria.

O Centro de Cultura Belo Horizonte, em associação com a PUC e com o Logo lógos (Ana Elisa Ribeiro e Cristiane Linhares), produz, todo mês, um debate com um autor contemporâneo drenado diretamente do fanzine.

Quem quiser participar, mande livros para a dona desta Estante e eu leio, curto e incluo no Logo lógos. Como o espaço do zine não é lá muito grande, não desanime se demorar um pouco a sair a edição que tem você e seus rebentos.

Todo mês, Logo lógos surge com alguns autores. O autor mineiro constante do fanzine é, automaticamente, convidado para um debate no Centro de Cultura e para uma esgrima cerebral com os leitores de seus livros. Esse mirado pode relançar sua obra lá, pode divulgá-la e jogá-la de grila, se quiser.

Cada debate é precedido de umas aparições nas tevês mineiras e de divulgação nos jornais impressos desta capital. Por enquanto, infelizmente, nós só alcançamos autores residentes em Belo Horizonte, mas a idéia é ampliar, um dia, esse escopo para outras cidades e outros estados. Já pensou? Hotelzinho de graça para vir a BH lançar seu livro e tomar uma cachaça?

O Logo lógos tem, agora, tiragem de 500 exemplares, com tendência de progressão. E Fabrício Marques é o primeiro convidado para o Janela do Caos porque esteve no número 2 do zine. Posso, inclusive, adiantar que o convidado # 3 será o prosador inclassificável Wir Caetano, que também reside aqui por estas plagas.

Recado dado, apareçam quarta-feira, dia 12 de março, às 19h, no Centro de Cultura Belo Horizonte e esgrimem com Fabrício Marques. O CCBH fica na esquina mais fashion da cidade, na rua da Bahia com av. Augusto de Lima, do lado oposto do edifício Maletta. É só chegar lá e ficar a postos.

Quem for de fora de BH e quiser ser esgrimado com o público, é só me avisar com antecedência. Se os poetas e prosadores vierem à capital mineira (e já estão convidados!), mandem um e-mail para logologos@patife.art.br e participem da nova grade literária da cidade.

beijos e contatos,
ana elisa ribeiro


na mira
Meu pequeno fim [Scriptum] e Samplers [Relume-Dumará], de Fabrício Marques

Terça-feira, Março 11, 2003



7.3.03


Bruno baleia São Paulo

É. O título desta entrevista é ambíguo mesmo e foi inspirado num papo de boteco que tive em São Paulo. Escritores à prova de balas conversavam sobre o tablóide antológico Notícias Populares, o NP. Cerveja na mesa, eu na minha vodca seca, e o papo fundava um olhar sobre a maior cidade do Brasil e, ao mesmo tempo, tornava aquelas pessoas alheias ao entorno.

Bruno Zeni tem esse olhar sobre a cidade e sobre os fatos que acontecem nesse imenso cenário de concreto e amianto. Retira notícias poéticas dos jornais e as transforma em minicontos jornalísticos.

Na entrevista que concedeu à Estante de Livros, o autor de O fluxo silencioso das máquinas faz barulho com a linguagem.

Estante: Bruno, O fluxo silencioso das máquinas (Ateliê Editorial) é seu primeiro livro publicado, certo? Como foi o percurso até a publicação dele?

Zeni: É meu primeiro livro e foi escrito entre 1998 e 2000. Antes disso, publiquei principalmente na revista Azougue, da qual fiz parte desde o segundo número, quando ela ainda era pouco mais que um fanzine. Já vinha escrevendo muito também como jornalista, mesmo antes de ter me formado, em 1997. Isso pra dizer que o primeiro livro surgiu depois de muita coisa escrita, que fui deixando para trás - ficaram nas revistas ou nos meus cadernos de apontamentos.
Não sou de escrever muito. Digo, não sou de escrever muita literatura. O Fluxo foi sendo escrito aos poucos, ao longo de dois, três anos, sem contudo partir de um projeto inicial. Depois que saí da Azougue, no começo de 98, não havia publicado mais nenhum texto literário. Estava sem lugar para publicar, o que foi, paradoxalmente, muito bom. Fiquei escrevendo para mim e, lá pelas tantas, percebi que havia uma unidade nos textos que vinha produzindo. Notei que poderia reuni-los e escrever outros textos para formar um livro. Foi o que fiz.
Depois mostrei para amigos próximos, e convidei quatro ilustradores para completar o que eu achava que eram os ¿intervalos¿ do livro: como o Fluxo é uma narrativa fragmentada, composta de textos bastante diversos entre si, tive essa idéia de convidar quatro ilustradores diferentes, a fim de dar conta, visualmente, da variedade dos textos.
O livro deveria ter saído no segundo semestre de 2001, mas acabou ficando para 2002 por problemas de excesso de trabalho da editora. O lançamento ficou bem próximo do segundo livro, Sobrevivente André du Rap (do Massacre do Carandiru), publicado pela Labortexto Editorial, escrito em parceria com o ex-detento André du Rap e lançado em setembro de 2002.

Estante: Você é curitibano e foi morar em São Paulo em 1989. Como tem sentido a cidade? O que leva você a compor inspirado no fluxo de Sampa?

Zeni: A cidade continua sendo um grande desafio, mas depois de catorze anos aqui posso dizer que me sinto mais paulistano que curitibano. São Paulo é uma cidade maravilhosa e terrível, e o Fluxo é uma espécie de acerto de contas com o meu espanto com essa contradição. Como vim muito novo para São Paulo, minha mudança coincide com a minha descoberta do mundo. Então acho que é isso que me fez escrever o livro.
O olhar é o de um estrangeiro que olha a cidade e se deixa maravilhar: acho mesmo que São Paulo é uma das cidades mais bonitas que já conheci até hoje. Ao mesmo tempo, o livro tem um certo mal-estar, uma certa melancolia, que tem a ver com a vida de cão que a gente leva em São Paulo, uma cidade que não é nada convidativa para quem não sabe ao certo o que fazer com ela. Uma cidade que não permite a contemplação e o repouso. Uma cidade que impõe um ritmo de vida que é, certamente, contrário a prazeres como o sonho, a memória, a amizade, a leitura.
Nesse sentido, um olhar descompromissado com a cidade certamente pode enxergar todos os problemas que ela tem: impessoalidade, poluição e trânsito, violência, escalas monumentais, distâncias intransponíveis, enormes diferenças de classe. Pra mim, porém, são essas coisas que me movem aqui. Quero entender a cidade e atuar nela, modificar e ser modificado pela cidade.
Aliás, entendo a literatura como a forma mais sincera e poderosa de compreender e transformar a realidade, ao mesmo tempo que é também a maneira mais íntima e dolorosa de entender a mim mesmo.

Sexta-feira, Março 07, 2003


Estante: Você comporia um livro a Curitiba nos mesmos termos?

Zeni: Dificilmente. Curitiba hoje é a cidade da minha infância e da minha família, um lugar com o qual tenho enormes dificuldades de lidar. Talvez com o tempo eu consiga olhar para trás, pensar em tudo o que vivi lá e produzir alguma coisa a partir disso. Hoje não.

Estante: O que você tem lido na atualidade? Quem está na sua mira?

Zeni: Estou lendo trabalhos ligados ao tema do meu mestrado (sobre a representação literária de São Paulo) e ao tema da literatura prisional e de testemunho (que se relaciona com o meu segundo livro). Tenho acompanhado, na medida do possível, a produção de literatura brasileira contemporânea. Sou otimista: acho que estamos vivendo um período rico, com muita gente escrevendo, publicando e discutindo literatura. O grande número de pequenas editoras, revistas e blogs dedicados à literatura é causa e sintoma dessa efervescência. Por outro lado, há problemas antigos e persistentes ligados à literatura e à leitura no país: os leitores são poucos, o analfabetismo é grande, as bibliotecas ainda são em pequeno número, a distribuição de livros é muito falha, as livrarias são todas iguais e - assim como as bibliotecas - se concentram nos bairros mais ricos, livro é um artigo caro e, portanto, um luxo, não uma necessidade. Esses problemas são de ordem estrutural e precisam ser resolvidos para que a literatura deixe de ser uma atividade restrita à elite e aos próprios escritores e editores.
Quanto à qualidade da literatura produzida hoje, alterno momentos de otimismo e de pessimismo. Acho que estamos vivendo um período de transição. Espero ver surgir um grande romancista desse caldo todo. Gosto, por exemplo, do livro do Paulo Lins e do Memórias de um sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, ambos escritores que lidam com uma literatura entre documental e de ficção. Dos escritores novos, gosto bastante do André Sant¿Anna e do Marcelo Mirisola. Fernando Bonassi é uma referência forte para mim. Volta e meia sinto necessidade de voltar aos livros da Hilda Hilst e do Graciliano. Gostei muito também de À margem da linha, de Paulo Rodrigues, lançado faz uns dois anos.
Exatamente agora estou lendo, aos poucos, O ser e o nada, do Sartre. Sensacional. E um impressionante Conversa na Sicília, de Elio Vittorini, que tem um primeiro capítulo de arrasar. Ando também com impulsos de ler ou reler alguns clássicos como Kafka, Dostoiévski, Proust, e brasileiros que ainda não li suficientemente, como Lima Barreto, Euclides da Cunha e o próprio Graciliano. Acho que é uma vontade de ler obras mais longas e profundas, que na literatura brasileira contemporânea infelizmente andam meio escassas.

Estante: Seu texto é uma mescla imprecisa de prosa e poesia. Qual é o limite entre uma coisa e outra na sua criação? O que você lê em poesia que carrega na sua prosa, ou vice-versa? Ou você não percebe assim?

Zeni: Não sei dizer ao certo qual é o limite entre uma coisa e outra. Eu gosto desses gêneros híbridos, que combinam poesia e prosa, literatura e filosofia, testemunho e ficção. Minha escrita é bastante poética, é verdade. Tenho um fascínio enorme pela cadência do texto e pela sonoridade das palavras. Faço isso de uma forma intuitiva e tento não ser poético no sentido de derramado e extravagante. Faço prosa e poesia da secura e da falta.
Se fosse para apontar algum autor que faz isso, acho que diria João Cabral de Melo Neto, que me impressionou de um jeito assombroso quando li a primeira vez. Me considero um leitor discreto de poesia: leio com olhos limpos, como quem procura uma intensidade de linguagem que a prosa é incapaz de oferecer. O período em que participei da edição da Azougue, com o Sergio Cohn, foi muito importante para me despertar para a beleza da poesia. Pra falar a verdade, até então eu não tinha muita paciência com a poesia. Ignorância mesmo. Mas, depois da revista, alguns autores como Roberto Piva e Afonso Henriques Neto impregnaram no meu texto e me fizeram ficar com os sentido abertos à poesia.
Ao mesmo tempo, meu lado jornalista me puxa para baixo, como uma âncora que me prende ao tempo presente. Tento não perder a dimensão de que, afinal, estamos imersos neste mundo de agora, na sangria do hoje, no perigo de mais um dia.

Estante: Você faz uma mistura entre ficção pura e a reescrita de notícias de jornal. A impressão que fica é que você está sempre antenado na cidade, na vida. Fale sobre essas recriações de fatos, as ficções possíveis, sua percepção da cidade via notícias.

Zeni: Acho que é por aí mesmo. No Fluxo, a introdução de notícias de jornal, sutilmente modificadas, na estrutura do livro tem por objetivo criar uma espécie de vínculo direto com o mundo real. É pelo jornal que ficamos sabendo dos acontecimentos do mundo, não? Ao mesmo tempo, é também uma certa maldade: atualmente a linguagem jornalística é tão primária que se torna quase ¿literária¿, pois é possível parodiá-la, subvertê-la e glosá-la facilmente, esbaldando-se com seus cacoetes e lugares-comuns.
O jornalismo de hoje está tão preocupado em relatar a ´verdade´, de forma ´isenta´, que se transformou num discurso absolutamente descolado de qualquer verdade senão aquela do absurdo, do comprometimento com a ideologia dominante e da compulsão pela desimportância - tudo vira notícia. Algo muito parecido com o Ministério da Verdade, do 1984, de George Orwell. O jornalismo que se pratica nos grandes jornais, na internet e na TV é uma indústria da falsidade feita de pequenas pílulas diárias de verdade.
Então, a idéia de incluir essa linguagem no Fluxo é uma estratégia dupla e contraditória: conferir realidade ao livro e ao mesmo tempo demolir com a idéia de realidade que o jornalismo institui. Espero, com isso, ter conseguido afirmar a supremacia da literatura, uma forma de lidar com o mundo muito mais aberta e complexa do que o jornalismo.

Estante: Há projeto de livro novo ou você vai deixar o universo conspirar a favor?

Zeni: Estou escrevendo um livro novo, mas ainda está muito cru. Acho que vai ser um romance - estou mesmo obcecado com a idéia de escrever uma narrativa longa. Posso dizer que vai ser algo muito próximo dos dois livros anteriores, talvez uma tentativa de síntese entre o Fluxo e o Sobrevivente.

Estante: Obrigada, Zeni. O fluxo silencioso das máquinas é um dos preferidos da Estante.

Zeni: Ana, eu é que agradeço. Estamos aí no mundo. Bacio.

Sexta-feira, Março 07, 2003





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